terça-feira, 27 de outubro de 2009

A noite que não acabou



Na quarta-feira pós-feriadão, Porto Alegre terá o prazer de receber o lançamento do livro que conta a história da tragédia recente do Brasil de Pelotas: A noite que não acabou, de Eduardo Cecconi e Nauro Júnior. Vai ser às 17h30, na Praça de Autógrafos.
Minha parte nesse causo é que editei boa parte do livro. E boa parte desse trabalho (e prazer) foi feito nas mesinhas dos três aviões que peguei para ir de Porto Alegre a São Paulo, de São Paulo a la Ciudad de Mexico, de la Ciudad de Mexico a Miami, e de Miami a San Francisco.
Ali abaixo estão meus comentários.
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Para você, caro dinamarquês que acabou de cair aqui, esclareço que a delegação de um time de futebol chamado Brasil [sim! o mesmo nome do nosso país], da cidade de Pelotas, no extremo sul do território, sofreu um acidente de ônibus depois de um jogo da pré-temporada, no dia 15 de janeiro de 2009.
Três pessoas morreram: o ídolo do time, um uruguaio [sim! ele era estrangeiro] chamado Claudio Milar; um zagueiro daqueles criados aqui, que todo mundo adorava, chamado Régis, um loirinho [sim! ele era brasileiro]; e o preparador de goleiros Giovani Guimarães.
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O livro é uma extensa reportagem apurada e escrita pelo Nauro e pelo Cecconi (parágrafos sobre os dois abaixo). O melhor do texto é o fato de ele ser baseado em apuração jornalística: foi escrito a partir de muitas entrevistas, de documentos como o inquérito e a perícia do acidente, além da observação do local onde o ônibus caiu, daquela região de Canguçu, e do testemunho do Nauro, que esteve lá o tempo todo.
Para quem se envolveu com essa história, é um relato indispensável.
Além de descrever com mais detalhamento e exatidão as coisas que já sabemos porque lemos a cobertura à época, ele traz elementos novos que nos permitem enxergar (com o 'célebro', é claro) o que acontecia, por exemplo, no exato momento em que o motorista entrou na curva antes da capotagem. Passamos a saber, por exemplo, que o Régis e o Alex Martins, dupla de zaga e amigos inseparáveis desde a infância, tinham feito uma brincadeira de péssimo gosto minutos antes. Sabemos também que um dos jogadores estaria de aniversário 30 minutos depois, e que o Milar era um dos pólos de papo no ônibus, distribuindo o mate.
O Cecconi é um jornalista do ClicEsportes que se apaixonou pelo futebol pelotense e pelo Xavante quando foi correspondente da Zero Hora em Pelotas. Criou o blog Cidade Futebol, já encerrado, mas que marcou época entre os fanáticos do futebol pelotense, e do qual sou um dos órfãos. É um obstinado (e obsessivo, talvez), que só não foi pra lá cobrir o acidente porque tem a anti-jornalística mania de desligar o celular de madrugada. Liguei muitas vezes para acioná-lo naquela madrugada - ficamos sabendo do ocorrido perto da meia-noite -, assim como outras pessoas da redação e até a diretora dele, mas não teve jeito. Talvez por remorso, depois ele pediu férias e foi para Pelotas entrevistar meio mundo para escrever o livro.
O Nauro é um apaixonado pela vida, pelas pessoas e por tudo que tenha a ver com Pelotas, e apesar de ter nascido em Novo Hamburgo. É ele quem faz, há 13 anos, com que Pelotas seja sempre bem retratada em Zero Hora. Tanto porque defende a cidade quando porque é ele quem fotografa. Ele talvez seja um chato ainda mais chato do que o Cecconi, aquele tipo de cara que embesta que uma coisa tem que ser feita e não descansa até que ela tenha acontecido. Não teria outro jeito de esse livro sair.
Na divisão dos trabalhos do livro, o Cecconi escreveu o miolo do texto e o Nauro escreveu o primeiro e o último capítulo. Lá no meio do volume também tem 10 páginas de boas fotos do Nauro. O Aldyr Garcia Schlee escreveu o prefácio e deu uma opinião holística sobre os originais, e eu rabisquei um monte a maior parte das páginas para dar uma melhorada no estilo.
Porque não dava mais tempo, deixei de meter a mão em umas 50 páginas do final do livro. Enviei o resultado para o Cecconi via FedEx, diretamente de San Francisco, em 1º de outubro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mais uma do NYT: Barra, a Miami do Rio

Apesar de eu ter acabado de voltar de Miami com a língua mordida depois de passar o dia no Art Déco District (outro exemplo), acho que dá pra continuar usando uma comparação muito popular entre cariocas: a de que a Barra não é Rio, a Barra é Miami.
(No Google, uma busca por "Barra da Tijuca" Miami retornou hoje 99.600 resultados e a saudosa revista Bundas certa feita fez uma enquete para ver se o leitor sabia diferenciar fotos de prédios de Miami dos da Barra.)
Fala-se, nesse caso, de Miami no "mau sentido": o lado rico-brega-exagerado de uma cidade com muitos shoppings, resorts e ostentação.
Aí o New York Times me abre a matéria O ponto quente do Rio com espírito de Miami com a seguinte descrição:
"Para alguns, a Barra da Tijuca é o bairro mais legal do Rio de Janeiro, abençoado com bonitas formações rochosas e uma praia coberta com alguns dos corpos mais sexys do planeta. Para outros, é uma versão brasileira do pior de Miami, cheia de engarrafamentos e shoppings fuleiros."
O ponto da matéria é que também dá pra morder a língua na Barra. E dá mesmo. Mas meu bem, se vais passar poucos dias no Rio, foge de lá. Faz como o Negão e faz tua vida embebido em chope, entre a Zona Sul e a Lapa.
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O NYT de ontem também veio com uma baita reportagem de turismo em Minas Gerais, que, segundo nosso consultor para assuntos caipiras, Thiago Medeiros, está muito boa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Em nome do povo dinamarquês: Mr. Obama, nós queremos o Rio



No dia em que seria anunciada a sede a Olimpíada de 2016, o jornal dinamarquês Politiken publicou um editorial de capa em inglês, dirigido a Barack Obama, que chegava a Copenhaguen para acompanhar a derrota de Chicago.

A mensagem: seja bem-vindo, presidente. Mas nós queremos a Olimpíada no Rio.

A idealizadora do texto é a adorável Anita Bundegaard, a editora de cultura e opinião do jornal e minha colega de curso aqui no Poynter, essa semana.

Segue a tradução:
(Também tem a versão em dinamarquês para nossos milhões de leitores nórdicos)

"Bem-vindo, presidente Obama


Como nós esperamos que o senhor perceba durante a sua breve visita a Copenhaguen, o povo dinamarquês como um todo calorosamente lhe dá as boas-vindas, bem como a primeira-dama, Michelle Obama.


Nós sabemos que o senhor não veio aqui visitar a Dinamarca, mas para apoiar a candidatura da sua Chicago para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.


Grande simpatia por seus esforços
Muitos dinamarqueses leram o seu fascinante e comovente livro "A origem dos meus sonhos", nos quais o senhor descreve os seus anos como trabalhador comunitário em Chicago.


Eles terão grande simpatia pelos seus esforços para garantir que esse grande evento vá para a sua cidade, tão rica em diversidade e de vida vibrante.


Se Chicago ganhar o prêmio, certamente isso se deverá aos seus esforços e ao seu status.


O Brasil merece vencer
Entretanto, o presidente Lula, do Brasil, que tem feito muito para combinar crescimento econômico com justiça social no seu país, também está na cidade. Ele vai defender com uma paixão tão grande como a sua uma outra cidade, o Rio de Janeiro.


A América Latina nunca foi anfitriã de uma Olimpíada, e, para ser honestos, nós achamos que a preponderância dos argumentos favorece o Rio. O Brasil merece reconhecimento por seus grandes avanços feitos nos últimos anos, tanto no sentido democrático quanto no econômico.


Parece a nós que os Jogos fariam ainda mais pelo Rio do que poderiam fazer por Chicago, e que o Brasil merece mais do que os Estados Unidos.


Pode ser que o seu enorme prestígio pessoal dirija o dia no Comitê Olímpico Internacional hoje, mais tarde. Nesse caso, Chicago celebrará, e nós vamos torcer por um grande show nas margens do Lago Michigan no verão de 2016, quando nós esperamos que o senhor cumprimente o mundo no ano final de seu segundo mandato.


Admiração e enormes expectativas
Nós esperamos vê-lo novamente em Copenhagen em breve, se possível para a Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, em dezembro, apesar de que nós sabemos das dificuldades que o senhor enfrenta sobre esse assunto no senado americano.


Finalmente, permita-nos expressar nossa espontânea admiração pela longa lista de esperançosas e criativas iniciativas políticas que o senhor tomou no seu primeiro ano como lider da mais poderosa democracia do mundo.


Sobretudo, nós apreciamos profundamente a filosofia básica que embasa a sua já histórica presidência: tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, vamos nos unir pelas nossas similaridades, e não nos dividir segundo nossas diferenças.


A sua eleição criou grandes expectativas, e com força e prudência, o senhor está indo adiante com sabedoria e velocidade deliberada.


Respeitavelmente,
Politiken"


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Por outro lado



Olha só o que diz a crítica do A Serious Man (trailer e resenha), o novo filme dos irmãos Cohen, também no San Diego Union-Tribune de hoje:
"É difícil dizer exatamente o que um filme dos irmãos Cohen é. Isso é parte do encanto deles. Joel e Ethan Cohen não simplesmente repetem o mesmo filme de novo e de novo. Mas há uma temática que frequentemente os atravessa, e que perpassa esse filme, o mais pessoal de todos até agora. Basicamente a ideia é que o universo é aleatório, te proporciona desafios imprevisíveis, e não há nada que tu possas fazer a respeito."
Caro resenhista, acho que tu ficaste bem perto de definir o espírito da coisa. Só me preocupa que, para um leitor apressado, pareça que os filmes (dos quais Queime Depoia de Ler é o melhor exemplar) são sobre a inevitabilidade do destino.
Não são. Na verdade, são sobre o acaso - as coisas que acontecem sem nenhuma razão "por trás", nem porque "estava escrito" ou porque "era pra ser assim". A tese é de que o acaso é inevitável, não de que o destino é inevitável.
(sorry.)

Um possante per capita


A manchete de hoje do San Diego Union-Tribune é sobre algo impressionante que eu vinha observando durante a viagem: a enorme maioria dos carros leva uma pessoa só.
A consequência disso é que a faixa da esquerda, destinada aos carpools - ou seja, carros que levam mais de uma pessoa -, fica vazia. Diz a estatística nacional que 87% dos motoristas anda só. E olha que a onda verde está na moda. E por toda a estrada há apelos pelos carpools, e na imprensa, e há até um telefone para as pessoas combinarem carona.

To GPS or not to GPS

Um dos primeiros textos desse blog dizia que "qualquer objeto, olhado por um sujeito maluco, pode se transformar em metáfora da vida".


O objeto do momento é a GPS (ela tem voz de mulher), a alcunha da Global Positioning System. A GPS é capaz de me levar, com rara precisão, aos endereços que eu solicito.


"Mrs. GPS, por favor, me leve de Santa Monica a Long Beach." Aí ela vai e diz: "turn left in Pacific Coast Highway in ... two ... poit ... three ... miiiiles", devagarinho pra eu entender direitinho. Ainda desenha um mapa parecido com a tela do Pac Men - eu sou o Pac, a estrada é o Men -, e a gente vai brincando de comer a linha demarcada até o destino final. "You have arrived", diz ela, ao final, como quem diz "You win".


A viagem em curso seria um desastre sem ela. Sozinho de carro, eu teria que estudar muito detalhadamente os mapas antes de partir e parar de tempos em tempos pra pegar o caminho certo nas highways da California. Poderia bater no carro da frente ou ser preso pelos sensuais police officers americanos (sorry, são as influências de San Francisco) consultando o mapa enquanto dirijo. E, sem dúvida, perderia muito tempo me perdendo (rá!).


Por essas coisas, quando um simpático negro de dreadlocks, dentes de ouro e jaqueta de couro me abordou na rua me pedindo cinco minutos para dizer o quanto é bom entregar a vida a Jesus, tive ganas de dizer que, infelizmente, no momento, eu tinha entregado minha vida à GPS.
"Sorry, man. In GPS we trust. Jesus may be the Lord, but GPS is Our Lady."


Agora vem o lado nefasto (uáu! que surpresa!). A GPS é absoluta, não dá espaço para o acaso. Não dá caminho opcional: o máximo que me deixa dizer é se eu prefiro usar o máximo de highways, ou o mínimo de highways, ou, vá lá, o trajeto mais rápido. Não dá pra dizer "mas GPSzinha, minha querida, eu queria ir pelo litoral". Ela não dá ouvidos.


Bom, se há um Sistema de Posicionamento Global, absoluto e independente, sobre o qual nós, humanos inconstantes, não temos poder de interferência; se a rota está traçada, e tudo o que há a fazer é seguir por ela, aceitando os congestionamentos, batidas e bloqueios de vias, sinaleiras e feiúras urbanas; se entendermos que tudo isso é inevitável e predestinado, então sobra pouco espaço para o nosso protagonismo na direção.


(Eu avisei.)


Como bom relativista, sou partidário do modelo híbrido. Especialmente quando não conhecemos os caminhos e não há tempo e/ou disposição para trilhá-lo por si só, a entrega do nosso destino à GPS faz sentido. Ela tem pais humanos, alguém a dotou de toda a experiência que agora ela me transmite devagarinho pra eu não me perder. Outros já trilharam esse caminho e me falam agora, pela voz dela.


Mas eu (que "não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio") sou protagonista sim, sou singular, e posso e quero me autodeterminar, andar em círculos, espiar as ruas que me parecem legais, dar meia volta pra parar em um lugar que me interessou, tentar tomar um caminho que eu mesmo escolhi, nem que seja pra dar de cara em uma rua sem saída e tentar de novo.


Aprendi a fazer isso. Sempre peço os conselhos da Mrs. GPS, e os ouço até quando é conveniente. Quando não é mais - em geral quando ela me manda entrar em uma highway cinza e feia, apesar de objetiva; ou quando me aproximo do destino, mas quero dar uma olhada em volta antes do final final -, eu tiro o som dela. Please be quiet, lady. Não a ouço mais, faço as coisas por mim mesmo.


Se eu acabar em um dead end, peço desculpas, lhe devolvo a voz e peço, por favor, me ajude a voltar ao caminho. Não deixa eu me perder na vida.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ontem

Cruzei o Big Sur...



...de carro.



Até que o dia estava bonito.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Carta Pública

Doutorzão, recebi tua mensagem! Mas meu celular não é o forte por aqui, afinal 1mb em roaming internacional custa R$ 39 (na "promoção" da TIM), então to me comunicando bem melhor por email e Skype.
Quando tava no meio do email pra ti, percebi que podia mandar notícias pra todo mundo. Então essa mensagem acaba de se tornar uma carta pública, a ser publicada no blog via Posterous.

Tudo na paz por aí?
Por aqui, deixei San Francisco ontem e fui dar uma olhada no que tem ali nos arredores: a Stanford University (em Palo Alto, a universidade que deu origem ao Vale do Silicio), a garagem onde os caras inventaram a HP, a sede do Google (em Mountain View), o chamado Googleplex, e a sede da Apple (em Cupertino). Tchê, em termos geográficos, é como se fosse ir a Canoas e Sapucaia. Agora, em termos de visual/estrutura... as cidades são tão calmas e perfeitas - arborizadas, ajardinadas, de um verde vibrante, com ruas hiper bem calçadas e ruas sinalizadíssimas, em um lugar onde um Focus Sedan é um carro 'compacto'. E aí tu tá lá, naquela calma, aquele silêncio, aqueles passarinhos cantando, e ali estão os muitos prédios de 2 ou 3 andares onde funciona o oráculo, o Google.
Bom, e Stanford é um sonho. Me fez lembrar de um conto de que me falaram uma vez, sobre uma família pobre, muito pobre, cujo sonho era um dia ter um guarda-roupa. Aí um dia juntaram uma grana e conseguiram comprar de crediário, nas Casas Bahia. Aí quando chegou o guarda-roupa e ele foi colocado no quarto, a dona Maria, nova dona, olhou pra ele, juntou as mãos, ajoelhou e disse: é tão bonito que dá vontade de chorar.
Pois cara, não consigo explicar isso direito, mas tive vontade de chorar ontem ao caminhar pela Campus Loop ontem, e vi aquele enorme gramado com aquela gente deitada, curtindo o sol e estudando, as palmeiras, o memorial do Mr. Stanford, um magnata que resolveu transformar uma de suas fazendas em universidade, o campo em campus.
Fui até o departamento de Comunicação, que curiosamente fica no coração do campus, e dei uma olhada em onde fica o programa de pós-graduação em Jornalismo - com uma certa resistência do professor a quem pedi informação e ele disse que toda informação tava online, não tinha nada o que olhar ali. Eu disse que, mesmo sem informações, queria ver o lugar fisicamente. "Phisically?", ele perguntou, de olhos arregalados, me encarando. Eu fiz cara de "why not". Respirou fundo, olhou pro lado e disse "well, ...", e me explicou onde era a coisa.
Bom, aí fui dormir em Santa Cruz (tipo Pinhal, o balneário mais perto) e logo de manhã parti pra Monterrey e Carmel, que, segundo tinham me explicado, é tipo uma Gramado com praia. Eu diria que tem uma cruza com o Rosa também, porque, apesar da organização e do asfalto onipresente, isso aqui foi nitidamente ocupado meio desordenadamente. Mas, realmente, o lugar é um amor. Como tenho horror de Gramado, estou aproveitando o lado mais Rosa, comendo umas ostras enquanto a lagosta não vem, aqui no Flaherty's. Eu só tinha comido sanduíche e xis até agora, então resolvi me tratar, como diria o pai.
Bom, e para amusement de todos os turistas que pisaram na praia vestindo calça e moletom, eu fui o único a pular no mar geladíssimo do Pacífico (na categoria 'sem long', porque tinha também 2 surfistas lááá na outra ponta da praia).
Agora à tarde o plano é cruzar o Big Sur (e tentar tomar um banho na inacreditável cachoreira que cai na praia) e ir dormir em Santa Barbara, já perto de Los Angeles. Tenho muito chão pela frente, mas se não fizer isso agora vou acabar tendo que correr no final da viagem, que promete ser o mais praiano, lá pras bandas de San Diego.
Bom, acho que é isso.
Ah, sim. Tô rodando por aí de carro alugado. Cheguei na Hertz, onde eu tinha feito a reserva, e não tinham o carro que eu reservei. Aí acabaram me dando um Mustang vermelho conversível rebaixado, com rádio via satélite (sem comerciais, 200 estações) e GPS. É, a coisa tá difícil.
Abraços,
Eduardo

1st Boo: Heading the Big Sur

Listen!

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Perspectivas

Há quem veja o mundo do 46o. andar do Hilton San Francisco.

Posted via email from Representação Pública

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

How to start up something

Lisa Williams clever view:
How do you know if you had a good idea?
You don’t.
And besides, always someone has already tried it.
So, you just do it anyway.

So, the real question is: what can you do without anyone’s permission or assistance?

No ar

Decidi usar as férias para vir aos Estados Unidos, onde, no momento, sobrevoo o Texas. Um dos pretextos para a vinda foi o preço da passagem que encontrei no Decolar.com: um São Paulo/Miami a convidativos US$ 660.  Mesmo comprando por fora as passagens PoA/SP e Miami/San Francisco (o trecho que estou fazendo agora), economizei US$ 200 em relação à segunda opção mais barata.

Por outro lado, meus caros, comecei a viagem às 19h20 de terça e, se o (quarto) avião não der ré, chegarei ao destino depois de 25h40min da partida. É um pinga-pinga internacional.
A sensação é parecida com a de pegar o Embaixador do meio-dia e meia, aquele que para no Grill.


Itinerário comentado


Porto Alegre - São Paulo: mamãe me deixou no Salgado Filho para um vôo tranquilíssimo e vazio da TAM para Guarulhos. 1h40 de sorriso bobo. Afinal, turma, tô de férias.


São Paulo - Ciudad de Mexico: aqui começa a economia. Um voo também tranquilo por uma surpreendentemente organizada e gentil Aeromexico, cheia de poltronas vazias, comidinhas apreciáveis (para paladares aéreos, claro) e com várias distrações interativas nas telinhas individuais. Só não entendi o porquê de o tempo de vôo ser de quase 10h. Que eu me lembre chega-se em NY em menos tempo.

Meu companheiro da fileira 14 do lado esquerdo, na janela, era uma bichinha magricela e simpatica com quem eu poderia ter conversado bastante, não fosse o rapaz envergonhado demais por saber ser o único a bordo incapaz de compreender ou balbuciar palavras nesse estranho idioma, o espanhol. Era cidadão americano, o rosto dizia, e passou boa parte do tempo jogando no seu iPhone.

Na fileira de trás, no trio de poltronas do meio, estava a mocinha mais querida do avião. Ela não mencionou nenhuma palavra, por falta de interlocutores, mas era a representante daquela classe de pessoas de aparência tão agradável que todos nós, os puros de coração, ficamos loucos para bater aqueles papos íntimos com desconhecidos que só as viagens proporcionam.

Além de ter ficado observando essas coisas que tu estás sendo obrigado a ler agora, eu me dediquei ao livro e a consagrar Gran Torino como o filme que mais vezes comecei a ver sem terminar. Essa foi a primeira vez, entretanto, que assisti a versão dublada em espanhol, porque eu ainda não havia dominado a estranha ciência de fazer com que o menu interativo da telinha obedeça a minha vontade, manifestada através do joystick. Nitidamente eu não era o único nessa condição - a bichinha assistiu uma comédia romântica com legendas em chinês e uma senhora na fileira da frente abria os braços a cada vez que o Tom Cruise dizia algo em francês.


Ciudad de Mexico-Miami: segundo capítulo da economia. Ás 9h30 locais da capital de todos os mexicanos, depois de fazer os tramites de migración, aduana e tomar um jugo de memey (no me preguntes) no Farolito com um croissant de jamón y queso do mexicaníssimo Starbucks Coffee, peguei a conexão da Aeromexico em um avião bem mais acanhado e, principalmente, cheio.

Tive sorte e a poltrona do meio a meu lado (sempre pego corredor, a mamãe me ensinou) era uma das únicas vazias. Na janela estava uma americana típica: gorda, feia, mal-vestida e antipática, nos seus provavelmente miseravelmente (desculpa, mente) vividos 28 anos. Estranhamente (lá vamos nós again) não era americana, porque pediu e preencheu o formulário de imigração destinados para nós, os latinos muçulmanos terroristas nazistas.

Aguentei tranqüilamente as cerca de 5 horas a bordo lendo o guia da California que a Cassia me emprestou.


Miami-San Francisco: como sou um gênio da aviação, consegui um vôo da American Airlines para esse trecho que saia logo depois da minha chegada à capital de Cuba. Para não ter erro, entretanto, protagonizei uma dissimulada corrida contra o temido No-Show através dos pasillos que llevam hasta el portal del paradiso, donde los hombree de la 'Migra' deciden quien entra o no en territorio Estadunidense.

Claro que eu não era o único nessa corrida - nós, os impacientes, sabemos que uma fila nos guichês de imigração brotam mais rápido que filhos daquele frei paraguaio, e que sempre convém ultrapassar ao menos uma parte dos companheiros de voo. Dizem os especialistas que cada ultrapassagem poupa, em média, 2min48s na fila de imigração de países com bandeiras sem amarelo ou preto. Um mexicano cabeludo travou uma disputa rodinha a rodinha comigo, trocando encontrões disfarçados nas curvas.

Deixei-o para trás quando ele acreditou que conseguiria ser mais rápido do que eu evitando a esteira elétrica, congestionada de lesmas. Ele não sabia que uns 'con permiso, con permiso' são o segredo da velocidade.

Ah, sim, o voo. Quando dei a primeira olhada no relógio tive a impressão de que o tempo estava retrocedendo. São cinco horas de voo e sem dúvida as mais arrastadas, em poltronas padrão BRA de conforto, me acotovelando com um tailandês ou boliviano (as palavras que ele troca com um cara da poltrona de trás reforçam a tese da Tailândia). A composição dos passageiros do vôo, lotado, é uniforme: são todos americaníssimos, a maioria desses que mal falam inglês. São latinos, muslims, amarelos, velhinhos que usam andador, jogadores de basquete, duas cheerleaders, dois baianos, um hippie, um nerd e uns três capitães de times de futebol americano. Tenho a impressão de ser o único estrangeiro.

***

Agora, tchê, já vejo lá no chão o território californiano. Explica-se: escrevi tudo isso no iPhone. Obrigado pela distração na última hora e meia.

Hasta!