quarta-feira, 22 de julho de 2009

Se não fosse polêmico, não seria Renan

"Ele tem um sonho na vida: ser eletricista. Fez um serviços para um tal Paulinho da Farmácia. Segurava a escada. O cara também deixou ele apertar alguns parafusos em tomadas – foi o suficiente para ele tomar gosto pela elétrica."


A leveza do gigante

Insuportável admirador do texto do New York Times que sou, traduzo o trecho final da resenha sobre o Hotel Fasano de Ipanema, Rio.

"Caro e pretensioso? Pode apostar. Apareça em um carro popular em vez de um Hummer espichado e o porteiro talvez não reconheça você. Mas dê um pulo no bar da cobertura, digamos, ao pôr-do-sol, e todas as chateações serão perdoadas."

Tá, seu blogueiro imbecil, o que esse trecho tem de tão admirável?

Ah pois é. Não tem nada demais. Só que é leve, descontraído, tem um toque de humor. Não tem nenhuma palavra burocrática. Não tira o corpo fora: não diz "segundo tal pessoa", porque o resenhista assume a autoria das impressões retratadas no texto. Utiliza adjetivos onde eles são cabíveis e justificáveis - pretensioso porque o porteiro pode não te atender em um carro popular, caro porque a diária mais barata sai por R$ 1.120.

Tá, seu blogueiro imbecil, e o que isso tem de diferente em relação aos nossos textos jornalísticos de cada dia?

Tudo. É impressionante como TV/rádio/jornais/revistas/sites costumam confundir objetividade com formalidade textual. A frase do carro popular poderia ser escrita assim:

Um hóspede que pediu para não ser identificado diz não ter sido atendido adequadamente ao chegar ao hotel, e acredita que o tratamento pode ter relação com o fato de ter se deslocado até o local em um automóvel popular.

Em favor do texto duro, há de se considerar que há menos espaço para desenvoltura quando as apurações são menos, digamos, apuradas: se não sabes o bastante sobre o assunto, corres o risco de ser impreciso caso resolvas dar uma tiradinha diferente. Nesses casos há alguma justificativa para o temível "a ação dos bandidos ocorreu (...)".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Até os italianos se perdem no "literalmente"

Diz o Corriere dello Sport hoje, sobre a suspensão do D'Alessandro:

In realtà, infatti, l'argentino ha letteralmente perso la testa, tentando di aggredire alcuni giocatori del Corinthians senza però arrivare a colpirli.


Em português, o trecho em negrito significa algo como


(...) o argentino literalmente perdeu a cabeça (...)


Como não há relatos sobre uma eventual decapitação do jogador, conclui-se que a notícia é exagerada e está em desacordo com o Tratado sobre o Uso Figurado do Literalmente.




segunda-feira, 13 de julho de 2009

Blogs, 2h30min depois

Queridos, o New York Times de hoje publica o resultado de um estudo muito simples e interessante sobre o ciclo de vida da notícia na internet. Vejam só:
Os pesquisadores de uma tal de Cornell monitoraram frases da cobertura eleitoral nos EUA. Usaram algoritmos para "ler" tudo o que era publicado em muitíssimos sites e blogs selecionados. Depois verificaram as repetições dessas frases nos diversos sites.
O resultado, em poucas palavras: os blogs “seguem” os sites das publicações tradicionais. Ou seja: as publicações tradicionais costumam dar as informações antes. Os blogs dão depois, com 2,5 horas de atraso, em média.
Por outro lado, em 3,5% dos casos, notícias se originaram antes nos blogs e depois nos sites das publicações tradicionais.
Evidentemente o universo da pesquisa é restrito, e estamos tratando aqui de uma cobertura em específico. Mas o interessante, a meu ver, é verificar que, realmente, os blogs (jornalísticos ?) costumam repercutir assuntos, e não ser fonte deles, na maioria dos casos. A produção de jornalismo ainda está concentrada nas redações convencionais.
Há de se observar, por outro lado, que os blogs têm o poder de apontar para essas peças jornalísticas. Chamam a atenção de pessoas que não as acessariam de outra forma. Mais: trazem novas perspectivas sobre o assunto. Mais: um blogueiro daqui nos indica uma notícia de lá, fazendo a função de personal fuçadores (acho que foi o que acabei de fazer, trazendo essa notícia do NYT). Mais: ...
É um tema inesgotável.
Ah, se vocês não pegaram o link do tal estudo, tá aqui: http://is.gd/1xvVw

Vai, meu irmão. Pega esse avião


Quando meu irmão embarcar no avião rumo à Suécia, terão se passado 6 anos, 6 meses e 15 dias desde que eu cruzei a porta do apê de Porto Alegre, puxando duas das sete malas da mudança e, em um tropeço, quebrei uma quina do rodapé. Do rodapé quebrado ao avião decolado, para quem me perguntou com quem eu morava, respondi: “com meu irmão”.
É possível que no início eu tenha dito isso meio que resmungando, de testa franzida. Não demorou muito até a cara mudar, e essa história de irmão deixou de ser só uma questão de consanguinidade. Meu irmão é meu parceiro. Decide meu corte de cabelo e me liga quando perde o ônibus e está em apuros.
Estou feliz por ele e pelas suecas que vão conhecê-lo. Mas não quero ficar um ano sem ele. Ao menos sem as histórias.
Então, meu irmão, vê se conta o contável no teu novo blog, que é também teu presente antecipado de aniversário de 25 anos:


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Opinião tardia sobre o diploma

Apesar de não costumarem declará-lo, o fundamento da posição dos sindicatos e associações profissionais de jornalistas contra a decisão do STF é a reserva de mercado. É uma posição corporativa: pretende garantir a exclusividade de exercício das funções jornalísticas, listadas na lei, para quem tem diploma.

A defesa dessa posição não é errada por princípio, desde que apoiada em justificativas válidas.
A justificativa apresentada na defesa da obrigatoriedade do diploma é aquilo que a formação universitária oferece, ao menos em tese, ao jornalista formado: o domínio das técnicas jornalísticas e a ética profissional.
Essa justificativa, entretanto, é frágil. Mesmo sem entrar no mérito da qualidade das escolas de Comunicação Social, há uma impressão largamente difundida entre os jornalistas de que nosso ofício “se aprende na prática”.
Talvez por isso muitos dos livros sobre a técnica profissional versem sobre casos concretos – os ensinamentos são oriundos de exemplos práticos e de seus resultados desejáveis ou indesejáveis. Avalia-se as técnicas com a resposta a uma questão: “funciona?”
Em suma, há pouca filosofia, princípios, metodologias e técnicas próprias do jornalismo.
Os parágrafos acima reúnem indícios de que o nosso ofício tem pouca especificidade técnica. A entrevista, a observação direta e as demais técnicas de apuração não são exclusividade do jornalismo. A checagem, a busca pela diversidade de fontes e todos os esforços pela precisão são fundamentais ao nosso ofício, tanto quanto à pesquisas em geral, praticadas em todas as áreas do conhecimento, com maior ou menor rigor. O domínio do texto, do português, da linguagem televisiva, radiofônica, online e impressa, segundo se diz, “se pega fazendo”, e por isso a faculdade coloca seus alunos a campo, a praticar nos estágios internos, nos laboratórios experimentais.
Não há também aspectos muito singulares na ética profissional. Os deveres do jornalista (segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros) são informar corretamente, lutar pela liberdade de expressão, defender o livre exercício da profissão, defender os princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem, combater a corrupção e respeitar a privacidade. Nada disso, nem as normas derivadas, é complexo e específico o suficiente para que só quem passou pela academia de Jornalismo possa respeitar.
Portanto, por falta de especificidade, não há porque restringir o exercício das funções jornalísticas a quem tem diploma. Não há dúvida de que a faculdade mantém sua importância para formar os melhores quadros das redações e da gestão dos meios de comunicação. Quem ostenta o diploma diz a quem interessar possa que dedicou ao menos quatro anos ao estudo e à prática experimental do jornalismo, que voltou sua vida ao ofício, que deseja exercê-lo e que provavelmente tem mais qualificações do que as demais pessoas para tanto. Está em vantagem competitiva, portanto, perante eventuais candidatos com outras formações. Não há dúvida de que os titulares de diplomas seguirão ocupando a maioria esmagadora das vagas em redações.


***
Escrevi esse texto tardiamente por provocação do amigo Negão.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Raio X da Coluna Cervical

"Bom alinhamento dos corpos vertebrais." (Arranjei um pretexto pra tomar um porre comemorativo hoje.)
Amplitude dos espaços discais preservada." (Vai ser de champagne.)
Corpos vertebrais de configuração anatômica." (Imagina se não fosse.)
Articulações uncovertebrais, interapofisárias e atlanto-axial sem alterações." (Deve valer uma pro santo.)
Tecidos moles paravertebrais de configuração usual." (Mole? Onde?)
Obs.: retificação da lordose anatômica cervical." (Tá, tá, não quero saber. Gostei mais da primeira linha!)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Idiotas tecnológicos

Que me perdoem os meus três leitores - já descontado o quarto, que acabei de perder -, mas estou testando um site sensacional chamado Posterous. A magia dele é publicar teus textos no blog, comentários no twitter ou no Facebook, até fotos no Picasa, usando o email. É simples demais: mandas um email pra


e ele coloca o conteúdo do email no twitter. Ele sabe que tu é tu porque cadastras teu email lá.
Outro exemplo: mandas um email pra


(que é o que eu acabei de fazer) e ele coloca o conteúdo do email no teu blog. Se tiver foto, a foto vai também.

Bom, pra ficar ainda mais mágico. Vamos dizer que queres escrever a mesma coisa no teu blog e no teu Facebook. Aí tu mandas o email pra


É um espetáculo. Não é?

Se ficaste imbecilizado como eu, podes saber um pouco mais de como funciona o negócio com essas dicas.