segunda-feira, 25 de maio de 2009

João Ubaldo e o foco nos erros. Dos outros

Informa meu pai que João Ubaldo Ribeiro está numa fase rabugenta, a reclamar dos textos dos outros. Viva a implicância! Viva o foco nos erros dos outros!

N'O Globo de domingo (e no DM, e em sei lá quantos outros jornais que compram a coluna dele), o cara me vem com o
Caderninho rabugento,
dedicado a bem registrar o que de mau se escreve por aí.

Agora me diz se nunca viste isso:

"Escuto agora um senhor afirmando que o presidente de uma comissão do Congresso não vai tomar nenhuma medida concreta (as abstratas, tudo bem) no momento, porque prefere aguardar maior unanimidade entre os membros da dita comissão. Mal tenho tempo para me indagar como é que a unanimidade pode ficar maior ou menor (...)"

"Despeço-me do televisor, não sem antes ouvir outro repórter dizer que uma inauguração ocorreu “há exatos vinte anos”. Fico imaginando vinte anos rigorosamente exatos, cada ano mais exato que outro, não admitindo nem ano bissexto. Outra vez inovamos e, agora que penso mais detidamente no assunto, parece que o Brasil vai de fato distinguir-se por tornar variáveis as categorias invariáveis."

"Creio também que já chegou a hora de preparar o necrológio de “cujo”, esse desconhecido. Há alguns marginais que ainda recorrem a ele, mas estão cada vez mais minoritários e acredito que dentro em breve quem usá-lo vai ser vaiado ou denunciado como elitista ou perguntado como vão as coisas na Ucrânia."

Quer mais? Lê lá.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Frost/Nixon/Moraes

Todos comigo: "tô nem aí, tô nem aí..." (Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Um jornalista deve ter entre os seus desejos sádicos (ou cidadãos, dependendo do caso) a chance de levar uma fonte a revelar seus crimes por meio de habilidades de entrevista.

É isso o que faz a magia da entrevista-tema do filme Frost/Nixon, e é por isso que o filme é uma vitrine para o que bom e de horrível que se pode fazer no papel de entrevistador.

Muito do que o o bom desempenho exige pode ser sintetizado com a palavra especificidade - é preciso fazer perguntas específicas, não generalistas; o que exige preparação e domínio das... vamos lá, das especificidades do assunto tratado.

O domínio do assunto, em geral, gera a confiança necessária para que, empertigado, o entrevistador aperte o entrevistado e não permita rodeios. Toda meia verdade será contestada, toda contradição será denunciada, toda inconsistência será questionada. (Repetir isso todas as manhãs, três vezes, antes de ir para a redação)

Foi assim, específico, preparado, empertigado e contestador, no apagar das luzes de uma jornada de entrevistas, que Frost, o entrevistador, arrancou de Nixon a histórica confissão inescrupulosa:

"When the president does, that means it is not illegal"


O engraçado é que, nos dias anteriores da entrevista, Frost havia sido generalista, despreparado, mole e tolerante com a lengalenga do presidente do Watergate. Só se salvou no final.

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Por favor, o próximo de vocês que tiver a oportunidade de entrevistar Sérgio Moraes, o deputado que se lixa, considere ir antes à sua Santa Cruz do Sul e chegar ao encontro armado, bem armado, de preparo empertigante.

Sem isso, não podemos ir muito além do "Por que o senhor se lixa?"; nem podemos afirmar, com conhecimento para contestá-lo diante do rodeio, qual é a origem de seu prestígio e riqueza na sociedade local; nem passar da especulação sobre sua ética e decoro, não temos cacife para (des)afirmá-la sem sermos questionado sobre a consistência da denúncia.

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Com tudo o que de odioso há no mero aspecto do Moraes, no seu manifestado desprezo pelo que nós - os que não votamos nele - pensamos, na sua defesa corporativa do deputado do castelo, mesmo com tudo isso, ele tem razão em duas coisas.

Primeiro: a imprensa não deve pautar as decisões administrativas/jurídicas. Se não há elementos que provem a culpa de um acusado, não podemos imputar a ele crime apenas com base na gritaria e em suposições desembasadas. Diz nosso orador-mor:

"A minha conduta não será ditada pela imprensa. Se eu entender que o Deputado Edmar Moreira é inocente, vou dizer que ele é inocente; se eu achar que ele é culpado, não será a imprensa que irá pautar o que eu for fazer quando apresentar o meu relatório."

Perfeito.

Segundo: a opinião pública não é a opinião publicada, e, por mais afinada que esteja com os valores gerais (?) da sociedade, não deve ser assim considerada. A declaração moraesiana, em verdade, não foi de que ele se está se lixando para a opinião pública. O que o rapaz disse foi que

"Ontem, uma repórter do jornal O Globo me ameaçou ao perguntar se eu não temia a opinião pública. Respondi que estava me lixando para aquilo que ela escreve no jornal O Globo, como estou me lixando para o que escrevam em outros jornais do País."

Bom, nessa afirmação há uma reação à arrogância de parte dos colegas jornalistas, aqueles que estão certos de representar o povo e a... opinião pública, com um mandato concedido por... eles mesmos.

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Ainda tem gente ganhando grana com as entrevistas completas de Nixon a Frost.

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Aprende-se sobre os fundamentos da entrevista nesse cursículo gratuito (em inglês) da NewsU.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Herrar é umano

Ainda na série "foco nos erros (dos outros)":

O blog Regret the Error destaca, diariamente, uma série de correções de jornais. A tese não declarada, mas evidente, e com a qual eu concordo plenamente, é que erros são inevitáveis e que exibi-los é incômodo, mas necessário. Assumi-los é a melhor forma de acabar com as rotas que levaram a eles no passado e escolher novos caminhos para o futuro. (bah, isso parece citação de livro de auto-ajuda)

Nem sempre se encontra nada lá muito estrondoso, mas o autor Craig Silverman teve a sacada de fazer uma espécie de Oscar das Correções, que anualmente premia com zombaria pública o que de mais horroroso de fez em diversas categorias. É divertidíssimo.

Dando uma lida lá, encontrei o incrível caso d'



Como se pode supor, o jornal acima se chama Valley News, e não Newss, como conseguiram escrever os responsáveis. Vermont e New Hampshire, onde o periódico circula, passaram a ter um veículo de imprensa globalmente reconhecido.

Eis a simpática e humilde correção correspondente:



sábado, 16 de maio de 2009

Desaprendendo com os pretensiosos

A Meio e Mensagem que me desculpe, mas, depois de uma série de maus exemplos, ela se consolidou para mim como celeiro de maus textos. Tanto que não me surpreendi ao encontrar a seguinte frase inicial na reportagem  Web força jornais a reverem modelos digitais, inocentemente indicada pelo Maurício (sem ler antes):

"Uma adaptação capitalista para a mais filosófica dúvida da dramaturgia universal assola donos de jornais do mundo todo."

Mai god. Sério, se tem uma coisa que acaba com um texto é a pretensão de erudição. Quando o texto é jornalístico, então, nem se fala. Na frase acima, o autor ainda faz a descortesia de deixar o leitor com a dúvida se ele, o leitor, não é um baita ignorante, que não consegue captar assim, de primeira, qual é a mais filosófica dúvida da dramaturgia universal, e sua respectiva adaptação capitalista.

Tu já sabes qual é, ou desconfias? Parabéns, sabichão. Não sabes? Bom, então compartilha comigo o prazer de se saber burro e ilumina-te com a revelação na frase seguinte:

"Cobrar ou não cobrar pelo acesso ao conteúdo de suas versões digitais é a questão que insiste em não calar para grandes grupos de mídia impressa."

Vou dar uma ajuda para quem ainda não pegou. "Cobrar ou não cobrar" (eis a questão) é a adaptação capitalista para a mais filosófica dúvida da dramaturgia universal, "Ser ou não ser".

Shakespeare agradece por, enfim, ter sua obra reconhecida.

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Por um momento, cheguei a ficar na dúvida: será que estou sendo duro demais? Vai ver que é tudo implicância minha, o texto é genial e erudito, sem nenhuma pretensão.

Reli e tive certeza do diagnóstico inicial. Afinal, uma peça que reúne os originalíssimos "insiste em não calar", "assola" e "do mundo todo" em apenas duas frases não pode se querer digno de nota. Ao menos de nota positiva.

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Outra: o Cassio Politi lembrou de um repórter de rádio que, um pouco confuso com as classes gramaticais, se saiu com essa:

"A diretoria do São Paulo não conjuga o verbo já."

Então vamos lá, todos comigo: eu já, tu jás, ele já; nós jamos, vós jáis...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Aprendendo com os mestres

"Considero a história apenas uma moldura dentro da qual desenho meu material; É o jogo de pensamento, e sentimento, e linguagem; a tessitura da personagem, porém expressivamente delineada; a exibição familiar e fiel de cenas da vida comum; e a veia de humorismo, meio escondida, que frequentemente se faz sentir no todo; essas são algumas das coisas a que viso."

Washington Irving, em Rip van Winkle