quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Na Colômbia, não respire

A mãe da colega e amiga Rossana Silva se viu mais próxima de um infarto ao ler as recomendações da Embaixada do Brasil na Colômbia, ao considerar que a filhinha estava de partida para 10 dias por lá.

Eis o que se diz aos viajantes nacionais em direção ao país de Gabriel García Márquez, das FARC, de Álvaro Uribe e de Valderrama:


"Em vista da prolongada atividade de grupos armados ilegais, nas zonas rurais, entre outros, visitas fora das grandes cidades devem ser avaliadas com extremo cuidado pelo interessado e (...) recomenda-se avaliar a possibilidade de contratar, a título privado, escoltas ou seguranças particulares."


"Viagens por via rodoviária devem ser evitadas. (...) As estatísticas relativas a sequestros indicam a ocorrência de numerosos casos em “blitze” de grupos armados em auto-estradas."


"Procure ter cuidado no contacto com estranhos (diante de alguma atitude suspeita, prefira sorrir e seguir seu caminho a engajar em conversa, já que sua condição de estrangeiro poderá ser facilmente percebida ao pronunciar as primeiras palavras)."


"Embora seja óbvio, deve ser evitada a aceitação de bebidas, alimentos ou objetos oferecidos por desconhecidos (mesmo quando tenham excelente aparência), sobretudo em casas noturnas."

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Em homenagem a Flávio Helder

Influenciado pelo amigo, colega e xará Eduardo Nunes, sigo na temporada de textos musicais (?).

***

Em uma das mesas de bar do verão de Porto Alegre, depois do show do Little Joy, o papo envereda por um vazio criativo e desemboca em um curioso jogo: os quatro amigos, nem todos de longa data, passam a se entrevistar um ao outro. Um por vez, desconstruídos pelos outros três.

É uma espécie de verdade ou conseqüência em que as verdades são as conseqüências. Ocasião em que gente que se conhece há 20 anos pergunta, sem muito pudor, sobre assuntos que sempre foram nebulosos. É quando o entrevistado, em prol de uma aproximação desejada com um recém-conhecido, revela coisas sobre si com constrangimento desejado, ridículo calculado, vergonha consentida.

Na fila de "quem eras tu no colégio", "o que ouvias quando tinhas 18 anos", "o que fazes sábado à noite quando estás sozinho", eis que na minha vez de responder o Negão me pergunta: "que música te tira do ar?" (ou do sério, ou te leva ao transe, ou algo parecido)

Nunca tinha pensado assim, mas, sem grandes reflexões, não demorei dezesseis segundos para responder:

Vou Festejar.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Little joy

Fruição não é lá uma palavra muito bonita, mas serve como sinônimo de gozo, cujo outro significado enrubesce parcela dos cidadãos.

Segue uma ode à fruição.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Katiuska, la bolivariana (en portuñol)


Irama Katiuska Morgado, una consejal bolivariana del municipio Ezequiel Zamora

LLegamos a las 13h al terminal de autobuses de Maracay. Caminando muchas cuadras, fuímos hacia la casa de Katiuska, una concejal chavista de una municipalidad próxima y tía de Quiaro.

Habia dos papagayos, dos perros, dos cuadros de Bolívar, muchas moscas, una carrozita de hot dog, una computadora al aire libre. No tenía agua encanada, pero si internet de banda ancha, webcam, microfone y auriculares profesionales.

Quiaro juega damas y charla en el MSN, mientras Katiuska saca fotos conmigo y una de las imágenes de Bolívar. Después, me regala una Constitución Bolivariana.

Katiuska ha sido consejal de 2001 hasta 2004. Ella se eligió por un partido de derecha, pero luego ha aderido al chavismo y ingresó al MVR. Eran 9 consejales, de los cuales 6 eran chavistas. Pero el alcade era anti-chavista (esqualido, como dicen los rojos) y, segun me dije, ha comprado con plata sus cinco compañeros.

Así se ha convertido en perseguida política, dejó su casa en la ciudad y volvió a vivir con su hija en Maracay. Cree que su hijo ha sido muerto por los enemigos de la alcadía. Abrió un cybercafe y vende hot dogs.

(10/12/2005, Maracay, Venezuela)

Lost in translation

Diálogo rápido na noite de domingo no Café Aquário. Garçom cansado, a cliente também.

– Um bauru.
– Simples?
– Pode ser de filé.
(Pausa)
“Ela não entendeu”, pensa o garçom, caneta e papelito em punho, boné pontiagudo mirando o teto.
Vamos de novo:
– Simples?
(Pausa. Ar saindo barulhento dos pulmões da moça)
“Ele é muito burro”, resolve a cliente, meio sem paciência, mas indiferente demais pra reclamar.
Vamos de novo:
– De filé.
(Pausa. Olhos do garçom fazendo um movimento circular, da moça pro teto, do teto pra moça)
Vamos de novo:
– Com ovo ou sem ovo?
– Sem.
(Pausa. Garçom abrindo sorriso vitorioso, de canto de boca)
A estocada:
– Simples.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O dia em que o editor do Times abraçou Chávez



Uma coisa legal e moderninha do The New York Times é o Talk to The Newsroom, uma seção do site que deixa semanalmente um editor do jornalão a serviço de nós, os cidadãozinhos.

Essa semana, quem está lá nos servindo é o, digamos, Dalai Lama do jornalismo de papel. Bill Keller, o editor-executivo, o homem que dirige a redação do diário mais influente do mundo.
As perguntas são inteligentes - "Eu quero ser um colunista do Times em, digamos, 20 anos. Esse emprego vai continuar existindo até lá?" - e as respostas hiper completas, nem um pouco evasivas.

Agora, o que me chamou atenção nessa entrevistona com Mr. Keller é o sarcasmo dele em uma pergunta muito interessante: como é um dia do todo-poderoso do Times?

Sem receio, ele debocha das idealizações que nós, cidadãozinhos, podemos fazer sobre o cotidiano dele.

Ó:

(atenção: tradução irresponsável)

Pergunta: Acredito que muitos jovens jornalistas e editores como eu têm curiosidade sobre como é um dia de Bill Keller. Você poderia nos conduzir por um dia normal de trabalho do editor-executivo do The Times?

Devin Banerjee, Stanford, California

Resposta: Sério? Você tem curiosidade sobre isso? Bom, acho que a minha vida é bem o que você imagina sobre ela.

Eu acordo na maioria das manhãs ao telefone, invariavelmente algum líder mundial ou celebridade internacional está procurando um conselho meu. Nos últimos tempos tem sido muito o presidente Obama, mas algumas vezes é Richard Holbrooke (n.t.: diplomata obamista) para saber meus pensamentos sobre o Afeganistão, ou Bruce Springsteen perguntando se não está na hora para mais uma matéria de capa no caderno de Cultura sobre Bruce Springsteen.

O criado traz o café com um monte de jornais que não faliram. Na limousine, a caminho do trabalho, eu ajudo Warren Buffet (o rei dos investidores) a selecionar seu portfólio e dou conselhos sobre negócios para George Steinbrenner (outro bilionário), não que ele me ouça.

No escritório, eu e Arthur Sulzberger Jr. (um dos donos do Times) temos nossa teleconferência matinal com Vladimir Putin, Hugo Chávez, Kim Jong-il e Mahmoud Ahmadinejad – mais Fidel Castro, quando ele está lúcido. Ditar a agenda global requer um monte de teleconferências. Eu ando incentivando os conspiradores a economizar uma grana usando iChat, mas primeiro a gente precisa convencer o Putin a vestir uma camisa.

O almoço no Four Seasons é sempre um ponto alto. Hoje é meu tetê-à-tête semanal com Bill O’Reilly (comentarista político da Fox News). Ele realmente não é o Neanderthal convencido que parece ser na TV. Ele é totalmente debochado. Depois de alguns drinques, ele faz uma imagem perversa de Ann Coulter (outra comentarista). Nós normalmente passamos o almoço pensando em coisas grosseiras que ele pode dizer sobre o New York Times e fazendo piadas sobre os executivos da Fox News. Uma vez Rupert Murdoch apareceu para um encontro no almoço, e O’Reilly teve que se esconder embaixo da mesa por meia hora.

Eu passo a maior parte da tarde escrevendo todas as matérias da capa – você sabe que aqueles eram meus pseudônimos, certo? Eu escrevo a coluna de Tom Friedman também, mas, eu juro, o Bill Kristol escreve todas as coisas dele.

Aí então vem a hora do jantar e de mais drinks. Se você está lendo isso, Julian, acho que pode ser pato hoje. Eu comi foie gras no almoço. E não vai ter tempo para sobremesa. A secretária de Estado (
Hillary Clinton) vai aparecer para me fazer uma massagem nas costas.

***

P.S.: Se o Flávio Tavares pode vender livros sob o título O dia em que Getúlio matou Allende, achei justo usar algo parecido no título desse texto.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Fragmentos de uma noite xavante


Como o compromisso desse blog é picotar os textos enormes que o autor teima em fazer, as quatro postagens abaixo diluem um olhar sobre o primeiro jogo do Brasil de Pelotas depois da tragédia que matou os jogadores Milar e Régis e o treinador de goleiros Giovani.

Foi 3 a 3 e o adversário era o Santa Cruz, mas isso não importa muito.

O que fazer em caso de tragédia


Havia várias dúvidas entre quem foi ao estádio, afinal, ninguém tinha experiência em partidas-depois-de-tragédias.

Fazer silêncio ou barulho na entrada do time em campo? Chorar ou sorrir? Relembrar a tragédia ou (tentar) ignorá-la?

A entrada no estádio dava respostas. Um, barulho. Dois, sorrir. Três, ã... relembrar, mas sem drama; ignorá-la, mas não fazer de conta que nada aconteceu.

(Tenho a impressão de que um argentino barbudo disse algo parecido.)

Minuto sem silêncio


Aí tinha o minuto de silêncio.

A torcida de voz nunca respeitou minuto de silêncio na Baixada, só a charanga. Só que dessa vez era diferente, e quando os jogadores se posicionaram em campo, pararam e baixaram as cabeças, os torcedores se dividiram entre três correntes.

Tinha os que se calaram, os que fizeram uma onda de “Shhs” e os que gritaram “cala a boca, porra!”

Já estavam todos em silêncio, um silêncio inimaginável em uma reunião de 15 mil, quando Carlos Simon deu um apito curto para COMEÇAR o minuto de silêncio oficial. Mas aí alguém gritou “hey”, as pessoas entenderam “rei”, esqueceram a quietude e responderam:
“Mi-lar! Mi-lar!”
E depois:
“Ré-gis! Ré-gis!”
E depois:
“Jô-vane! Jô-vane!”

Terminaram justo quando o Simon apitou de novo. Não teve silêncio no minuto. Era a estreia.

O primeiro frango


A torcida só conhecia dois jogadores em campo: o zagueiro Alex Martins, porque cresceu na Baixada, e o recém-chegado Danrlei, porque é o Danrlei.

Neles estava, portanto, nossa confiança: o Claudião já tinha avisado que o time está despreparado, desentrosado, nem é um time ainda; restava acreditar nos nossos conhecidos.

A confiança ruiu quando o Danrlei, que é o Danrlei, a traiu. Não segurou um chute relativamente fácil. Tomou um gol quando ainda tínhamos esperança de que o jogo seria normal: o Brasil tomaria um calor, os zagueiros tirariam 10 bolas de cima da linha, o goleiro faria milagre e, aos 38 do segundo tempo, numa confusão na área, ganharíamos por 1 a 0.

Tragédia (re)feita, não cabia reclamar: restava incentivar os desconfiáveis, tolerando sua condição de desconfiáveis.

Roscas, cruzamentos bisonhos e passes errados foram aplaudidos o jogo inteiro. Os seis ou oito torcedores que tentaram gritar “raça, raça” foram censurados pelos demais.

O primeiro gol

Já não havia nenhuma esperança na arquibancada quando um dos desconfiáveis, de nome Adriano Sella, chutou uma bola de longe, e ela bateu em alguém no caminho e foi no contrapé do goleiro. Gol do Brasil.

Enquanto a torcida fazia o que lhe cabia, o desconfiável veio correndo em direção à massa, olhos arregalados, boca em um sorriso escancarado, abrindo os braços para dizer aos companheiros que não lhe agarrassem, ele pretendia fazer algo especial.

Então ajoelhou, sacou uma flecha imaginária das costas, armou o arco imaginário e disparou contra a torcida.

Era o gesto do Milar.

Gelei. Pensei: “a torcida tolerará que um desconfiável se aproprie, assim, no mais, de um gesto do nosso ídolo?”

Felizmente, não há tempo pra reflexão em momentos de êxtase. Sella teve absolvição sumária, e foi imediatamente esquecido no momento em que ele quis ser o castelhano.

“Mi-lar! Mi-lar!”, gritou a Baixada.
Aquele gol era do Milar. Foi ele que desviou a bola.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Como um peixinho no cinema II: scripts online

Ainda na linha como-lembrar-de-tudo-o-que-tu-esqueceste-sobre-o-filme: uma busca por "Vicky Cristina Barcelona" "terminal hold" no Google me fez encontrar o script do Woody Allen.

(Em tempo - terminal hold é a genial expressão dita pelo narrador, em off, para se referir a um plano adiado para sempre. Foi uma das poucas coisas que lembrei depois da sessão, apesar de ter adorado o filme.)

Curioso: busque "Vicky Cristina Barcelona" script e não acharás nada.

Bom, brincando de Google mais um pouco, encontra-se um site chamado SimplyScripts, cujo nome diz tudo sobre seu conteúdo. Acha-se lá scripts até de coisas recentes, como o (dispensável) O curioso caso de Benjamin Button, do abaixo citado (excelente) Foi apenas um sonho e do (divertidíssimo) Queime depois de ler.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Como um peixinho no cinema I: citações online


Anos depois de assistir um filme, há quem saiba detalhar o enredo, descrever cenas, citar nomes de personagens. Esse não sou eu. Mesmo nos meus preferidos, que não são muitos, sou incapaz de lembrar de qualquer vago elemento da trama.

Para não me sentir ridículo nas discussões, andei pesquisando e encontrei umas coisas interessantes.

***

Tem umas grandes frases esse Foi apenas um sonho (Revolutionary Road), 0 filme novo do Sam Mendes (ex-Beleza Americana) e com Kate Winslet + Leonardo DiCaprio – bela ironia ver a dupla do (argh) Titanic em um filme hiper-cético.
Eu tinha certeza que não lembraria de nenhuma delas ao sair do Cinemark do BarraShoppingSul, mas arranjei uma bela memória postiça: os quotes do IMDB.

Antes de lê-las, é bom saber que se trata de um filme sobre o desencantamento de um casal nos EUA de 1955. O par outrora jovem e sonhador, o hoje casado, com dois filhos, morador de um casarão de cerca branca (sem cerca) no subúrbio, mulher dona-de-casa (estudou para ser atriz) e marido funcionário administrativo de uma grande firma (queria morar em Paris). Uma boa resenha tem aqui.


“No one forgets the truth. They just get better at lying.”
(“to themselves”, eu acrescentaria.)
April Wheeler (Winslet), sobre o fato de que a sinceridade não faz parte das discussões de casal. Mesmo sondáveis, motivações e vontades são ocultados sob a retórica.

“You're just some guy who made me laugh at a party once.”
Idem, ao marido (DiCaprio), derrubando a crença de que o casal tem alguma conexão mais intensa. O dia da conquista é a única coisa que motiva a relação futura.

“Hopeless emptiness. Now you've said it. Plenty of people are onto the emptiness, but it takes real guts to see the hopelessness.”
John Givings, em dia fora do hospício, sobre a condição de vida do casal. Não falta dinheiro, nem casa, nem carro. Falta algo pelo que engajar-se.