terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Que venha 2010

Big Sur, California, outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A noite que não acabou



Na quarta-feira pós-feriadão, Porto Alegre terá o prazer de receber o lançamento do livro que conta a história da tragédia recente do Brasil de Pelotas: A noite que não acabou, de Eduardo Cecconi e Nauro Júnior. Vai ser às 17h30, na Praça de Autógrafos.
Minha parte nesse causo é que editei boa parte do livro. E boa parte desse trabalho (e prazer) foi feito nas mesinhas dos três aviões que peguei para ir de Porto Alegre a São Paulo, de São Paulo a la Ciudad de Mexico, de la Ciudad de Mexico a Miami, e de Miami a San Francisco.
Ali abaixo estão meus comentários.
***
Para você, caro dinamarquês que acabou de cair aqui, esclareço que a delegação de um time de futebol chamado Brasil [sim! o mesmo nome do nosso país], da cidade de Pelotas, no extremo sul do território, sofreu um acidente de ônibus depois de um jogo da pré-temporada, no dia 15 de janeiro de 2009.
Três pessoas morreram: o ídolo do time, um uruguaio [sim! ele era estrangeiro] chamado Claudio Milar; um zagueiro daqueles criados aqui, que todo mundo adorava, chamado Régis, um loirinho [sim! ele era brasileiro]; e o preparador de goleiros Giovani Guimarães.
***
O livro é uma extensa reportagem apurada e escrita pelo Nauro e pelo Cecconi (parágrafos sobre os dois abaixo). O melhor do texto é o fato de ele ser baseado em apuração jornalística: foi escrito a partir de muitas entrevistas, de documentos como o inquérito e a perícia do acidente, além da observação do local onde o ônibus caiu, daquela região de Canguçu, e do testemunho do Nauro, que esteve lá o tempo todo.
Para quem se envolveu com essa história, é um relato indispensável.
Além de descrever com mais detalhamento e exatidão as coisas que já sabemos porque lemos a cobertura à época, ele traz elementos novos que nos permitem enxergar (com o 'célebro', é claro) o que acontecia, por exemplo, no exato momento em que o motorista entrou na curva antes da capotagem. Passamos a saber, por exemplo, que o Régis e o Alex Martins, dupla de zaga e amigos inseparáveis desde a infância, tinham feito uma brincadeira de péssimo gosto minutos antes. Sabemos também que um dos jogadores estaria de aniversário 30 minutos depois, e que o Milar era um dos pólos de papo no ônibus, distribuindo o mate.
O Cecconi é um jornalista do ClicEsportes que se apaixonou pelo futebol pelotense e pelo Xavante quando foi correspondente da Zero Hora em Pelotas. Criou o blog Cidade Futebol, já encerrado, mas que marcou época entre os fanáticos do futebol pelotense, e do qual sou um dos órfãos. É um obstinado (e obsessivo, talvez), que só não foi pra lá cobrir o acidente porque tem a anti-jornalística mania de desligar o celular de madrugada. Liguei muitas vezes para acioná-lo naquela madrugada - ficamos sabendo do ocorrido perto da meia-noite -, assim como outras pessoas da redação e até a diretora dele, mas não teve jeito. Talvez por remorso, depois ele pediu férias e foi para Pelotas entrevistar meio mundo para escrever o livro.
O Nauro é um apaixonado pela vida, pelas pessoas e por tudo que tenha a ver com Pelotas, e apesar de ter nascido em Novo Hamburgo. É ele quem faz, há 13 anos, com que Pelotas seja sempre bem retratada em Zero Hora. Tanto porque defende a cidade quando porque é ele quem fotografa. Ele talvez seja um chato ainda mais chato do que o Cecconi, aquele tipo de cara que embesta que uma coisa tem que ser feita e não descansa até que ela tenha acontecido. Não teria outro jeito de esse livro sair.
Na divisão dos trabalhos do livro, o Cecconi escreveu o miolo do texto e o Nauro escreveu o primeiro e o último capítulo. Lá no meio do volume também tem 10 páginas de boas fotos do Nauro. O Aldyr Garcia Schlee escreveu o prefácio e deu uma opinião holística sobre os originais, e eu rabisquei um monte a maior parte das páginas para dar uma melhorada no estilo.
Porque não dava mais tempo, deixei de meter a mão em umas 50 páginas do final do livro. Enviei o resultado para o Cecconi via FedEx, diretamente de San Francisco, em 1º de outubro.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mais uma do NYT: Barra, a Miami do Rio

Apesar de eu ter acabado de voltar de Miami com a língua mordida depois de passar o dia no Art Déco District (outro exemplo), acho que dá pra continuar usando uma comparação muito popular entre cariocas: a de que a Barra não é Rio, a Barra é Miami.
(No Google, uma busca por "Barra da Tijuca" Miami retornou hoje 99.600 resultados e a saudosa revista Bundas certa feita fez uma enquete para ver se o leitor sabia diferenciar fotos de prédios de Miami dos da Barra.)
Fala-se, nesse caso, de Miami no "mau sentido": o lado rico-brega-exagerado de uma cidade com muitos shoppings, resorts e ostentação.
Aí o New York Times me abre a matéria O ponto quente do Rio com espírito de Miami com a seguinte descrição:
"Para alguns, a Barra da Tijuca é o bairro mais legal do Rio de Janeiro, abençoado com bonitas formações rochosas e uma praia coberta com alguns dos corpos mais sexys do planeta. Para outros, é uma versão brasileira do pior de Miami, cheia de engarrafamentos e shoppings fuleiros."
O ponto da matéria é que também dá pra morder a língua na Barra. E dá mesmo. Mas meu bem, se vais passar poucos dias no Rio, foge de lá. Faz como o Negão e faz tua vida embebido em chope, entre a Zona Sul e a Lapa.
***
O NYT de ontem também veio com uma baita reportagem de turismo em Minas Gerais, que, segundo nosso consultor para assuntos caipiras, Thiago Medeiros, está muito boa.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Em nome do povo dinamarquês: Mr. Obama, nós queremos o Rio



No dia em que seria anunciada a sede a Olimpíada de 2016, o jornal dinamarquês Politiken publicou um editorial de capa em inglês, dirigido a Barack Obama, que chegava a Copenhaguen para acompanhar a derrota de Chicago.

A mensagem: seja bem-vindo, presidente. Mas nós queremos a Olimpíada no Rio.

A idealizadora do texto é a adorável Anita Bundegaard, a editora de cultura e opinião do jornal e minha colega de curso aqui no Poynter, essa semana.

Segue a tradução:
(Também tem a versão em dinamarquês para nossos milhões de leitores nórdicos)

"Bem-vindo, presidente Obama


Como nós esperamos que o senhor perceba durante a sua breve visita a Copenhaguen, o povo dinamarquês como um todo calorosamente lhe dá as boas-vindas, bem como a primeira-dama, Michelle Obama.


Nós sabemos que o senhor não veio aqui visitar a Dinamarca, mas para apoiar a candidatura da sua Chicago para sede dos Jogos Olímpicos de 2016.


Grande simpatia por seus esforços
Muitos dinamarqueses leram o seu fascinante e comovente livro "A origem dos meus sonhos", nos quais o senhor descreve os seus anos como trabalhador comunitário em Chicago.


Eles terão grande simpatia pelos seus esforços para garantir que esse grande evento vá para a sua cidade, tão rica em diversidade e de vida vibrante.


Se Chicago ganhar o prêmio, certamente isso se deverá aos seus esforços e ao seu status.


O Brasil merece vencer
Entretanto, o presidente Lula, do Brasil, que tem feito muito para combinar crescimento econômico com justiça social no seu país, também está na cidade. Ele vai defender com uma paixão tão grande como a sua uma outra cidade, o Rio de Janeiro.


A América Latina nunca foi anfitriã de uma Olimpíada, e, para ser honestos, nós achamos que a preponderância dos argumentos favorece o Rio. O Brasil merece reconhecimento por seus grandes avanços feitos nos últimos anos, tanto no sentido democrático quanto no econômico.


Parece a nós que os Jogos fariam ainda mais pelo Rio do que poderiam fazer por Chicago, e que o Brasil merece mais do que os Estados Unidos.


Pode ser que o seu enorme prestígio pessoal dirija o dia no Comitê Olímpico Internacional hoje, mais tarde. Nesse caso, Chicago celebrará, e nós vamos torcer por um grande show nas margens do Lago Michigan no verão de 2016, quando nós esperamos que o senhor cumprimente o mundo no ano final de seu segundo mandato.


Admiração e enormes expectativas
Nós esperamos vê-lo novamente em Copenhagen em breve, se possível para a Conferência da ONU sobre as Mudanças Climáticas, em dezembro, apesar de que nós sabemos das dificuldades que o senhor enfrenta sobre esse assunto no senado americano.


Finalmente, permita-nos expressar nossa espontânea admiração pela longa lista de esperançosas e criativas iniciativas políticas que o senhor tomou no seu primeiro ano como lider da mais poderosa democracia do mundo.


Sobretudo, nós apreciamos profundamente a filosofia básica que embasa a sua já histórica presidência: tanto nos Estados Unidos quanto no exterior, vamos nos unir pelas nossas similaridades, e não nos dividir segundo nossas diferenças.


A sua eleição criou grandes expectativas, e com força e prudência, o senhor está indo adiante com sabedoria e velocidade deliberada.


Respeitavelmente,
Politiken"


sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Por outro lado



Olha só o que diz a crítica do A Serious Man (trailer e resenha), o novo filme dos irmãos Cohen, também no San Diego Union-Tribune de hoje:
"É difícil dizer exatamente o que um filme dos irmãos Cohen é. Isso é parte do encanto deles. Joel e Ethan Cohen não simplesmente repetem o mesmo filme de novo e de novo. Mas há uma temática que frequentemente os atravessa, e que perpassa esse filme, o mais pessoal de todos até agora. Basicamente a ideia é que o universo é aleatório, te proporciona desafios imprevisíveis, e não há nada que tu possas fazer a respeito."
Caro resenhista, acho que tu ficaste bem perto de definir o espírito da coisa. Só me preocupa que, para um leitor apressado, pareça que os filmes (dos quais Queime Depoia de Ler é o melhor exemplar) são sobre a inevitabilidade do destino.
Não são. Na verdade, são sobre o acaso - as coisas que acontecem sem nenhuma razão "por trás", nem porque "estava escrito" ou porque "era pra ser assim". A tese é de que o acaso é inevitável, não de que o destino é inevitável.
(sorry.)

Um possante per capita


A manchete de hoje do San Diego Union-Tribune é sobre algo impressionante que eu vinha observando durante a viagem: a enorme maioria dos carros leva uma pessoa só.
A consequência disso é que a faixa da esquerda, destinada aos carpools - ou seja, carros que levam mais de uma pessoa -, fica vazia. Diz a estatística nacional que 87% dos motoristas anda só. E olha que a onda verde está na moda. E por toda a estrada há apelos pelos carpools, e na imprensa, e há até um telefone para as pessoas combinarem carona.

To GPS or not to GPS

Um dos primeiros textos desse blog dizia que "qualquer objeto, olhado por um sujeito maluco, pode se transformar em metáfora da vida".


O objeto do momento é a GPS (ela tem voz de mulher), a alcunha da Global Positioning System. A GPS é capaz de me levar, com rara precisão, aos endereços que eu solicito.


"Mrs. GPS, por favor, me leve de Santa Monica a Long Beach." Aí ela vai e diz: "turn left in Pacific Coast Highway in ... two ... poit ... three ... miiiiles", devagarinho pra eu entender direitinho. Ainda desenha um mapa parecido com a tela do Pac Men - eu sou o Pac, a estrada é o Men -, e a gente vai brincando de comer a linha demarcada até o destino final. "You have arrived", diz ela, ao final, como quem diz "You win".


A viagem em curso seria um desastre sem ela. Sozinho de carro, eu teria que estudar muito detalhadamente os mapas antes de partir e parar de tempos em tempos pra pegar o caminho certo nas highways da California. Poderia bater no carro da frente ou ser preso pelos sensuais police officers americanos (sorry, são as influências de San Francisco) consultando o mapa enquanto dirijo. E, sem dúvida, perderia muito tempo me perdendo (rá!).


Por essas coisas, quando um simpático negro de dreadlocks, dentes de ouro e jaqueta de couro me abordou na rua me pedindo cinco minutos para dizer o quanto é bom entregar a vida a Jesus, tive ganas de dizer que, infelizmente, no momento, eu tinha entregado minha vida à GPS.
"Sorry, man. In GPS we trust. Jesus may be the Lord, but GPS is Our Lady."


Agora vem o lado nefasto (uáu! que surpresa!). A GPS é absoluta, não dá espaço para o acaso. Não dá caminho opcional: o máximo que me deixa dizer é se eu prefiro usar o máximo de highways, ou o mínimo de highways, ou, vá lá, o trajeto mais rápido. Não dá pra dizer "mas GPSzinha, minha querida, eu queria ir pelo litoral". Ela não dá ouvidos.


Bom, se há um Sistema de Posicionamento Global, absoluto e independente, sobre o qual nós, humanos inconstantes, não temos poder de interferência; se a rota está traçada, e tudo o que há a fazer é seguir por ela, aceitando os congestionamentos, batidas e bloqueios de vias, sinaleiras e feiúras urbanas; se entendermos que tudo isso é inevitável e predestinado, então sobra pouco espaço para o nosso protagonismo na direção.


(Eu avisei.)


Como bom relativista, sou partidário do modelo híbrido. Especialmente quando não conhecemos os caminhos e não há tempo e/ou disposição para trilhá-lo por si só, a entrega do nosso destino à GPS faz sentido. Ela tem pais humanos, alguém a dotou de toda a experiência que agora ela me transmite devagarinho pra eu não me perder. Outros já trilharam esse caminho e me falam agora, pela voz dela.


Mas eu (que "não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio") sou protagonista sim, sou singular, e posso e quero me autodeterminar, andar em círculos, espiar as ruas que me parecem legais, dar meia volta pra parar em um lugar que me interessou, tentar tomar um caminho que eu mesmo escolhi, nem que seja pra dar de cara em uma rua sem saída e tentar de novo.


Aprendi a fazer isso. Sempre peço os conselhos da Mrs. GPS, e os ouço até quando é conveniente. Quando não é mais - em geral quando ela me manda entrar em uma highway cinza e feia, apesar de objetiva; ou quando me aproximo do destino, mas quero dar uma olhada em volta antes do final final -, eu tiro o som dela. Please be quiet, lady. Não a ouço mais, faço as coisas por mim mesmo.


Se eu acabar em um dead end, peço desculpas, lhe devolvo a voz e peço, por favor, me ajude a voltar ao caminho. Não deixa eu me perder na vida.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Ontem

Cruzei o Big Sur...



...de carro.



Até que o dia estava bonito.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Carta Pública

Doutorzão, recebi tua mensagem! Mas meu celular não é o forte por aqui, afinal 1mb em roaming internacional custa R$ 39 (na "promoção" da TIM), então to me comunicando bem melhor por email e Skype.
Quando tava no meio do email pra ti, percebi que podia mandar notícias pra todo mundo. Então essa mensagem acaba de se tornar uma carta pública, a ser publicada no blog via Posterous.

Tudo na paz por aí?
Por aqui, deixei San Francisco ontem e fui dar uma olhada no que tem ali nos arredores: a Stanford University (em Palo Alto, a universidade que deu origem ao Vale do Silicio), a garagem onde os caras inventaram a HP, a sede do Google (em Mountain View), o chamado Googleplex, e a sede da Apple (em Cupertino). Tchê, em termos geográficos, é como se fosse ir a Canoas e Sapucaia. Agora, em termos de visual/estrutura... as cidades são tão calmas e perfeitas - arborizadas, ajardinadas, de um verde vibrante, com ruas hiper bem calçadas e ruas sinalizadíssimas, em um lugar onde um Focus Sedan é um carro 'compacto'. E aí tu tá lá, naquela calma, aquele silêncio, aqueles passarinhos cantando, e ali estão os muitos prédios de 2 ou 3 andares onde funciona o oráculo, o Google.
Bom, e Stanford é um sonho. Me fez lembrar de um conto de que me falaram uma vez, sobre uma família pobre, muito pobre, cujo sonho era um dia ter um guarda-roupa. Aí um dia juntaram uma grana e conseguiram comprar de crediário, nas Casas Bahia. Aí quando chegou o guarda-roupa e ele foi colocado no quarto, a dona Maria, nova dona, olhou pra ele, juntou as mãos, ajoelhou e disse: é tão bonito que dá vontade de chorar.
Pois cara, não consigo explicar isso direito, mas tive vontade de chorar ontem ao caminhar pela Campus Loop ontem, e vi aquele enorme gramado com aquela gente deitada, curtindo o sol e estudando, as palmeiras, o memorial do Mr. Stanford, um magnata que resolveu transformar uma de suas fazendas em universidade, o campo em campus.
Fui até o departamento de Comunicação, que curiosamente fica no coração do campus, e dei uma olhada em onde fica o programa de pós-graduação em Jornalismo - com uma certa resistência do professor a quem pedi informação e ele disse que toda informação tava online, não tinha nada o que olhar ali. Eu disse que, mesmo sem informações, queria ver o lugar fisicamente. "Phisically?", ele perguntou, de olhos arregalados, me encarando. Eu fiz cara de "why not". Respirou fundo, olhou pro lado e disse "well, ...", e me explicou onde era a coisa.
Bom, aí fui dormir em Santa Cruz (tipo Pinhal, o balneário mais perto) e logo de manhã parti pra Monterrey e Carmel, que, segundo tinham me explicado, é tipo uma Gramado com praia. Eu diria que tem uma cruza com o Rosa também, porque, apesar da organização e do asfalto onipresente, isso aqui foi nitidamente ocupado meio desordenadamente. Mas, realmente, o lugar é um amor. Como tenho horror de Gramado, estou aproveitando o lado mais Rosa, comendo umas ostras enquanto a lagosta não vem, aqui no Flaherty's. Eu só tinha comido sanduíche e xis até agora, então resolvi me tratar, como diria o pai.
Bom, e para amusement de todos os turistas que pisaram na praia vestindo calça e moletom, eu fui o único a pular no mar geladíssimo do Pacífico (na categoria 'sem long', porque tinha também 2 surfistas lááá na outra ponta da praia).
Agora à tarde o plano é cruzar o Big Sur (e tentar tomar um banho na inacreditável cachoreira que cai na praia) e ir dormir em Santa Barbara, já perto de Los Angeles. Tenho muito chão pela frente, mas se não fizer isso agora vou acabar tendo que correr no final da viagem, que promete ser o mais praiano, lá pras bandas de San Diego.
Bom, acho que é isso.
Ah, sim. Tô rodando por aí de carro alugado. Cheguei na Hertz, onde eu tinha feito a reserva, e não tinham o carro que eu reservei. Aí acabaram me dando um Mustang vermelho conversível rebaixado, com rádio via satélite (sem comerciais, 200 estações) e GPS. É, a coisa tá difícil.
Abraços,
Eduardo

1st Boo: Heading the Big Sur

Listen!

sábado, 3 de outubro de 2009

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Perspectivas

Há quem veja o mundo do 46o. andar do Hilton San Francisco.

Posted via email from Representação Pública

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

How to start up something

Lisa Williams clever view:
How do you know if you had a good idea?
You don’t.
And besides, always someone has already tried it.
So, you just do it anyway.

So, the real question is: what can you do without anyone’s permission or assistance?

No ar

Decidi usar as férias para vir aos Estados Unidos, onde, no momento, sobrevoo o Texas. Um dos pretextos para a vinda foi o preço da passagem que encontrei no Decolar.com: um São Paulo/Miami a convidativos US$ 660.  Mesmo comprando por fora as passagens PoA/SP e Miami/San Francisco (o trecho que estou fazendo agora), economizei US$ 200 em relação à segunda opção mais barata.

Por outro lado, meus caros, comecei a viagem às 19h20 de terça e, se o (quarto) avião não der ré, chegarei ao destino depois de 25h40min da partida. É um pinga-pinga internacional.
A sensação é parecida com a de pegar o Embaixador do meio-dia e meia, aquele que para no Grill.


Itinerário comentado


Porto Alegre - São Paulo: mamãe me deixou no Salgado Filho para um vôo tranquilíssimo e vazio da TAM para Guarulhos. 1h40 de sorriso bobo. Afinal, turma, tô de férias.


São Paulo - Ciudad de Mexico: aqui começa a economia. Um voo também tranquilo por uma surpreendentemente organizada e gentil Aeromexico, cheia de poltronas vazias, comidinhas apreciáveis (para paladares aéreos, claro) e com várias distrações interativas nas telinhas individuais. Só não entendi o porquê de o tempo de vôo ser de quase 10h. Que eu me lembre chega-se em NY em menos tempo.

Meu companheiro da fileira 14 do lado esquerdo, na janela, era uma bichinha magricela e simpatica com quem eu poderia ter conversado bastante, não fosse o rapaz envergonhado demais por saber ser o único a bordo incapaz de compreender ou balbuciar palavras nesse estranho idioma, o espanhol. Era cidadão americano, o rosto dizia, e passou boa parte do tempo jogando no seu iPhone.

Na fileira de trás, no trio de poltronas do meio, estava a mocinha mais querida do avião. Ela não mencionou nenhuma palavra, por falta de interlocutores, mas era a representante daquela classe de pessoas de aparência tão agradável que todos nós, os puros de coração, ficamos loucos para bater aqueles papos íntimos com desconhecidos que só as viagens proporcionam.

Além de ter ficado observando essas coisas que tu estás sendo obrigado a ler agora, eu me dediquei ao livro e a consagrar Gran Torino como o filme que mais vezes comecei a ver sem terminar. Essa foi a primeira vez, entretanto, que assisti a versão dublada em espanhol, porque eu ainda não havia dominado a estranha ciência de fazer com que o menu interativo da telinha obedeça a minha vontade, manifestada através do joystick. Nitidamente eu não era o único nessa condição - a bichinha assistiu uma comédia romântica com legendas em chinês e uma senhora na fileira da frente abria os braços a cada vez que o Tom Cruise dizia algo em francês.


Ciudad de Mexico-Miami: segundo capítulo da economia. Ás 9h30 locais da capital de todos os mexicanos, depois de fazer os tramites de migración, aduana e tomar um jugo de memey (no me preguntes) no Farolito com um croissant de jamón y queso do mexicaníssimo Starbucks Coffee, peguei a conexão da Aeromexico em um avião bem mais acanhado e, principalmente, cheio.

Tive sorte e a poltrona do meio a meu lado (sempre pego corredor, a mamãe me ensinou) era uma das únicas vazias. Na janela estava uma americana típica: gorda, feia, mal-vestida e antipática, nos seus provavelmente miseravelmente (desculpa, mente) vividos 28 anos. Estranhamente (lá vamos nós again) não era americana, porque pediu e preencheu o formulário de imigração destinados para nós, os latinos muçulmanos terroristas nazistas.

Aguentei tranqüilamente as cerca de 5 horas a bordo lendo o guia da California que a Cassia me emprestou.


Miami-San Francisco: como sou um gênio da aviação, consegui um vôo da American Airlines para esse trecho que saia logo depois da minha chegada à capital de Cuba. Para não ter erro, entretanto, protagonizei uma dissimulada corrida contra o temido No-Show através dos pasillos que llevam hasta el portal del paradiso, donde los hombree de la 'Migra' deciden quien entra o no en territorio Estadunidense.

Claro que eu não era o único nessa corrida - nós, os impacientes, sabemos que uma fila nos guichês de imigração brotam mais rápido que filhos daquele frei paraguaio, e que sempre convém ultrapassar ao menos uma parte dos companheiros de voo. Dizem os especialistas que cada ultrapassagem poupa, em média, 2min48s na fila de imigração de países com bandeiras sem amarelo ou preto. Um mexicano cabeludo travou uma disputa rodinha a rodinha comigo, trocando encontrões disfarçados nas curvas.

Deixei-o para trás quando ele acreditou que conseguiria ser mais rápido do que eu evitando a esteira elétrica, congestionada de lesmas. Ele não sabia que uns 'con permiso, con permiso' são o segredo da velocidade.

Ah, sim, o voo. Quando dei a primeira olhada no relógio tive a impressão de que o tempo estava retrocedendo. São cinco horas de voo e sem dúvida as mais arrastadas, em poltronas padrão BRA de conforto, me acotovelando com um tailandês ou boliviano (as palavras que ele troca com um cara da poltrona de trás reforçam a tese da Tailândia). A composição dos passageiros do vôo, lotado, é uniforme: são todos americaníssimos, a maioria desses que mal falam inglês. São latinos, muslims, amarelos, velhinhos que usam andador, jogadores de basquete, duas cheerleaders, dois baianos, um hippie, um nerd e uns três capitães de times de futebol americano. Tenho a impressão de ser o único estrangeiro.

***

Agora, tchê, já vejo lá no chão o território californiano. Explica-se: escrevi tudo isso no iPhone. Obrigado pela distração na última hora e meia.

Hasta!

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Beleza em versinhos

Outro dos amigos que tem me embalado é o Jorge, aquele uruguaio. Das belas peças que ele andou escrevendo, além da ruborizante descrição de Don de fluir, o hombre me aparece com Todo se transforma. Que também podia se chamar don de fluir, aliás: é uma ode aos fluxos da vida, à causa e efeito e aos prazeres que nós, os idiotas, encontramos no acaso.
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Tu beso se hizo calor,
luego el calor, movimiento
luego gota de sudor
que se hizo vapor, luego viento
que en un rincón de La Rioja
movió el aspa de un molino
mientras se pisaba el vino
que bebió tu boca roja.



Tu boca roja en la mía,
la copa que gira en mi mano
y mientras el vino caía
supe que de algún lejano
rincón de otra galaxia,
el amor que me darías
transformado, volvería
un día a darte las gracias.


Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.


El vino que pagué yo
con aquel euro italiano
que había estado en un vagón
antes de estar en mi mano,
y antes de eso en Torino,
y antes de Torino, en Prato,
donde hicieron mi zapato
sobre el que caería el vino.


Zapato que en unas horas
buscaré bajo tu cama
con las luces de la aurora,
junto a tus sandalias planas
que compraste aquella vez
en Salvador de Bahía,
donde a otro diste el amor
que hoy yo te devolvería.


Cada uno da lo que recibe
y luego recibe lo que da,
nada es más simple,
no hay otra norma:
nada se pierde,
todo se transforma.

Beleza em letrinhas

Em uma época em que ando sentindo mais do que escrevendo, tenho a sorte de ter amigos que escrevem bem demais.
Essa moça aqui escreveu uma das mais belas declarações de amor que já li. Leiam também. Poucas palavras, muitas evocações.

Eu sei bem e tu sabe também

Degustação:
"Na hora de ir embora a gente vai achar que é mentira, pesadelo. E de novo vamos contar os dias no calendário, ansiosos pela próxima vez, que a gente sabe exatamente como vai ser. E por isso é tão difícil esperar."
Que viva o amor.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Irmão cronista

Em 5 minutos a bateria do laptop vai acabar. Nada do meu avião. Dá tempo de dizer
Leia as crônicas de Henriksson na Suécia em
Estão ótimas. Uma degustação:
"Desde que cheguei por aqui, acho que a nativa com quem mais tive contato foi a caixa do supermercado na saída da estação de metrô aqui perto de casa."

Condição presente

No aeroporto de Brasília, ouvindo Los Hermanos - Condicional, esperando uma conexao atrasada pra Goiania, falando com várias pessoas no MSN e com a Dama da Ponte no Skype.
"Viva os não-lugares e a compressão do espaço-tempo". (HENRIKSSON, 2009) 
Nesse meio tempo, os vôos que partiram - ao menos foi o que disse a moça do som - vão em direção a Porto Velho, Macapá, Manaus. Viva o Brasil.

sábado, 22 de agosto de 2009

Síndrome de Estocolmo

Entrevistei meu irmão direto de Estocolmo usando o Wetoku, um negócio bem interessante. Foi um teste. Vejam aqui:



quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Solo quiero verte bailar


Tengo torpes las rodillas y tu veloces los pies.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Quebra de sigilo

Depois de mais de um ano de enrolação em torno do sigilo da investigação do MPF sobre desvio de recursos do Detran gaúcho, que inclui a governadora Yeda Crusius, entre outras pessoas com mandato, os procuradores, na semana passada, deram uma coletiva de imprensa para comunicar a entrega da inicial de uma ação civil pública à Justiça.
Acontece que os procuradores só deram as linhas gerais do processo, por causa da questão do sigilo, segundo eles. As mais de mil páginas do documento conteriam informações oriundas de escutas e dados fiscais, que não poderiam ser divulgados.
No fim-de-semana a OAB teve acesso e divulgou 40 páginas iniciais - as que não seriam sigilosas -, e depois o Polibio Braga colocou tudo na internet, pra baixar, aqui. A Rosane Oliveira acabou também colocando o material na rede, em uma versão bem mais leve.
Gente nas redações se perguntou: Tá, mesmo que a gente tenha acesso ao processo, os jornalistas podem publicar a íntegra do documento assim, no mas? Não podemos levar processo por quebra de sigilo?
Mandei um e-mail pra lista da Abraji, que tem gente entendida do assunto.
Veio uma luz do Fernando Rodrigues, da Folha, um dos caras que sabe do negócio.

"Caros,
A regra que parece mais ou menos pacificada no Poder Judiciário é a seguinte: o guardião do documento sob segredo é responsável pela reserva da informação.
Se a imprensa obtém a informação, pode publicá-la se julgar haver ali interesse jornalístico. 
A função do jornalista não é a de ajudar a manter documentos em sigilo. Se tem acesso ao documento, nada impede o jornalista de publicá-lo.
Mas, atenção: não é porque um documento sigiloso vaza que ele necessariamente tem de ser publicado. Por exemplo, um processo que trata de assuntos de uma Vara de Família, sobre a separação de um casal e a guarda dos filhos. Esse documento privado é sempre mantido sob sigilo e só as partes podem manuseá-lo. Se um jornalista tiver acesso, entendo que não deva necessariamente deve publicá-lo.
O ponto central é o interesse público. No caso de pessoas públicas, que ocupam cargos públicos e são acusadas objetivamente com provas materiais, parece-me claro que deve ser franqueado o acesso da mídia (e dos cidadãos em geral) ao processo.
abs.,
Fernando R."

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Se não fosse polêmico, não seria Renan

"Ele tem um sonho na vida: ser eletricista. Fez um serviços para um tal Paulinho da Farmácia. Segurava a escada. O cara também deixou ele apertar alguns parafusos em tomadas – foi o suficiente para ele tomar gosto pela elétrica."


A leveza do gigante

Insuportável admirador do texto do New York Times que sou, traduzo o trecho final da resenha sobre o Hotel Fasano de Ipanema, Rio.

"Caro e pretensioso? Pode apostar. Apareça em um carro popular em vez de um Hummer espichado e o porteiro talvez não reconheça você. Mas dê um pulo no bar da cobertura, digamos, ao pôr-do-sol, e todas as chateações serão perdoadas."

Tá, seu blogueiro imbecil, o que esse trecho tem de tão admirável?

Ah pois é. Não tem nada demais. Só que é leve, descontraído, tem um toque de humor. Não tem nenhuma palavra burocrática. Não tira o corpo fora: não diz "segundo tal pessoa", porque o resenhista assume a autoria das impressões retratadas no texto. Utiliza adjetivos onde eles são cabíveis e justificáveis - pretensioso porque o porteiro pode não te atender em um carro popular, caro porque a diária mais barata sai por R$ 1.120.

Tá, seu blogueiro imbecil, e o que isso tem de diferente em relação aos nossos textos jornalísticos de cada dia?

Tudo. É impressionante como TV/rádio/jornais/revistas/sites costumam confundir objetividade com formalidade textual. A frase do carro popular poderia ser escrita assim:

Um hóspede que pediu para não ser identificado diz não ter sido atendido adequadamente ao chegar ao hotel, e acredita que o tratamento pode ter relação com o fato de ter se deslocado até o local em um automóvel popular.

Em favor do texto duro, há de se considerar que há menos espaço para desenvoltura quando as apurações são menos, digamos, apuradas: se não sabes o bastante sobre o assunto, corres o risco de ser impreciso caso resolvas dar uma tiradinha diferente. Nesses casos há alguma justificativa para o temível "a ação dos bandidos ocorreu (...)".

terça-feira, 14 de julho de 2009

Até os italianos se perdem no "literalmente"

Diz o Corriere dello Sport hoje, sobre a suspensão do D'Alessandro:

In realtà, infatti, l'argentino ha letteralmente perso la testa, tentando di aggredire alcuni giocatori del Corinthians senza però arrivare a colpirli.


Em português, o trecho em negrito significa algo como


(...) o argentino literalmente perdeu a cabeça (...)


Como não há relatos sobre uma eventual decapitação do jogador, conclui-se que a notícia é exagerada e está em desacordo com o Tratado sobre o Uso Figurado do Literalmente.




segunda-feira, 13 de julho de 2009

Blogs, 2h30min depois

Queridos, o New York Times de hoje publica o resultado de um estudo muito simples e interessante sobre o ciclo de vida da notícia na internet. Vejam só:
Os pesquisadores de uma tal de Cornell monitoraram frases da cobertura eleitoral nos EUA. Usaram algoritmos para "ler" tudo o que era publicado em muitíssimos sites e blogs selecionados. Depois verificaram as repetições dessas frases nos diversos sites.
O resultado, em poucas palavras: os blogs “seguem” os sites das publicações tradicionais. Ou seja: as publicações tradicionais costumam dar as informações antes. Os blogs dão depois, com 2,5 horas de atraso, em média.
Por outro lado, em 3,5% dos casos, notícias se originaram antes nos blogs e depois nos sites das publicações tradicionais.
Evidentemente o universo da pesquisa é restrito, e estamos tratando aqui de uma cobertura em específico. Mas o interessante, a meu ver, é verificar que, realmente, os blogs (jornalísticos ?) costumam repercutir assuntos, e não ser fonte deles, na maioria dos casos. A produção de jornalismo ainda está concentrada nas redações convencionais.
Há de se observar, por outro lado, que os blogs têm o poder de apontar para essas peças jornalísticas. Chamam a atenção de pessoas que não as acessariam de outra forma. Mais: trazem novas perspectivas sobre o assunto. Mais: um blogueiro daqui nos indica uma notícia de lá, fazendo a função de personal fuçadores (acho que foi o que acabei de fazer, trazendo essa notícia do NYT). Mais: ...
É um tema inesgotável.
Ah, se vocês não pegaram o link do tal estudo, tá aqui: http://is.gd/1xvVw

Vai, meu irmão. Pega esse avião


Quando meu irmão embarcar no avião rumo à Suécia, terão se passado 6 anos, 6 meses e 15 dias desde que eu cruzei a porta do apê de Porto Alegre, puxando duas das sete malas da mudança e, em um tropeço, quebrei uma quina do rodapé. Do rodapé quebrado ao avião decolado, para quem me perguntou com quem eu morava, respondi: “com meu irmão”.
É possível que no início eu tenha dito isso meio que resmungando, de testa franzida. Não demorou muito até a cara mudar, e essa história de irmão deixou de ser só uma questão de consanguinidade. Meu irmão é meu parceiro. Decide meu corte de cabelo e me liga quando perde o ônibus e está em apuros.
Estou feliz por ele e pelas suecas que vão conhecê-lo. Mas não quero ficar um ano sem ele. Ao menos sem as histórias.
Então, meu irmão, vê se conta o contável no teu novo blog, que é também teu presente antecipado de aniversário de 25 anos:


quarta-feira, 8 de julho de 2009

Opinião tardia sobre o diploma

Apesar de não costumarem declará-lo, o fundamento da posição dos sindicatos e associações profissionais de jornalistas contra a decisão do STF é a reserva de mercado. É uma posição corporativa: pretende garantir a exclusividade de exercício das funções jornalísticas, listadas na lei, para quem tem diploma.

A defesa dessa posição não é errada por princípio, desde que apoiada em justificativas válidas.
A justificativa apresentada na defesa da obrigatoriedade do diploma é aquilo que a formação universitária oferece, ao menos em tese, ao jornalista formado: o domínio das técnicas jornalísticas e a ética profissional.
Essa justificativa, entretanto, é frágil. Mesmo sem entrar no mérito da qualidade das escolas de Comunicação Social, há uma impressão largamente difundida entre os jornalistas de que nosso ofício “se aprende na prática”.
Talvez por isso muitos dos livros sobre a técnica profissional versem sobre casos concretos – os ensinamentos são oriundos de exemplos práticos e de seus resultados desejáveis ou indesejáveis. Avalia-se as técnicas com a resposta a uma questão: “funciona?”
Em suma, há pouca filosofia, princípios, metodologias e técnicas próprias do jornalismo.
Os parágrafos acima reúnem indícios de que o nosso ofício tem pouca especificidade técnica. A entrevista, a observação direta e as demais técnicas de apuração não são exclusividade do jornalismo. A checagem, a busca pela diversidade de fontes e todos os esforços pela precisão são fundamentais ao nosso ofício, tanto quanto à pesquisas em geral, praticadas em todas as áreas do conhecimento, com maior ou menor rigor. O domínio do texto, do português, da linguagem televisiva, radiofônica, online e impressa, segundo se diz, “se pega fazendo”, e por isso a faculdade coloca seus alunos a campo, a praticar nos estágios internos, nos laboratórios experimentais.
Não há também aspectos muito singulares na ética profissional. Os deveres do jornalista (segundo o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros) são informar corretamente, lutar pela liberdade de expressão, defender o livre exercício da profissão, defender os princípios da Declaração Universal dos Direitos do Homem, combater a corrupção e respeitar a privacidade. Nada disso, nem as normas derivadas, é complexo e específico o suficiente para que só quem passou pela academia de Jornalismo possa respeitar.
Portanto, por falta de especificidade, não há porque restringir o exercício das funções jornalísticas a quem tem diploma. Não há dúvida de que a faculdade mantém sua importância para formar os melhores quadros das redações e da gestão dos meios de comunicação. Quem ostenta o diploma diz a quem interessar possa que dedicou ao menos quatro anos ao estudo e à prática experimental do jornalismo, que voltou sua vida ao ofício, que deseja exercê-lo e que provavelmente tem mais qualificações do que as demais pessoas para tanto. Está em vantagem competitiva, portanto, perante eventuais candidatos com outras formações. Não há dúvida de que os titulares de diplomas seguirão ocupando a maioria esmagadora das vagas em redações.


***
Escrevi esse texto tardiamente por provocação do amigo Negão.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Raio X da Coluna Cervical

"Bom alinhamento dos corpos vertebrais." (Arranjei um pretexto pra tomar um porre comemorativo hoje.)
Amplitude dos espaços discais preservada." (Vai ser de champagne.)
Corpos vertebrais de configuração anatômica." (Imagina se não fosse.)
Articulações uncovertebrais, interapofisárias e atlanto-axial sem alterações." (Deve valer uma pro santo.)
Tecidos moles paravertebrais de configuração usual." (Mole? Onde?)
Obs.: retificação da lordose anatômica cervical." (Tá, tá, não quero saber. Gostei mais da primeira linha!)

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Idiotas tecnológicos

Que me perdoem os meus três leitores - já descontado o quarto, que acabei de perder -, mas estou testando um site sensacional chamado Posterous. A magia dele é publicar teus textos no blog, comentários no twitter ou no Facebook, até fotos no Picasa, usando o email. É simples demais: mandas um email pra


e ele coloca o conteúdo do email no twitter. Ele sabe que tu é tu porque cadastras teu email lá.
Outro exemplo: mandas um email pra


(que é o que eu acabei de fazer) e ele coloca o conteúdo do email no teu blog. Se tiver foto, a foto vai também.

Bom, pra ficar ainda mais mágico. Vamos dizer que queres escrever a mesma coisa no teu blog e no teu Facebook. Aí tu mandas o email pra


É um espetáculo. Não é?

Se ficaste imbecilizado como eu, podes saber um pouco mais de como funciona o negócio com essas dicas.

sábado, 20 de junho de 2009

Leite Derramado na Marambaia

Já se disse por aí tudo que se tem a dizer sobre o Leite Derramado, livro do Chico Buarque que não vou chamar de novo porque foi lançado quando ele ainda 64 anos, e desde ontem ele já tá nos 65.

Resta, então, dar uma olhada naquela descrição da Restinga da Marambaia que ele faz lá na página 42.

"Ia me despedir quando ele mencionou as provas de artilharia na Marambaia, e não sei por que não o fez desde o início, num instante tudo se iluminou. Seria mesmo inútil revirar arquivos de nomes e rostos, porque minha memória tinha guardado o sargento na paisagem.

Era um dia de sol, e do alto da duna eu contemplava o trecho mais delgado da restinga, uma linha de branquíssima areia que o oceano não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo natural ou por sadismo. As ondas espumavam simultaneamente, à direita e à esquerda da faixa de areia, era como uma praia diante do espelho."

Cara, sou fascinado por descrições. Dirá alguém, com razão, que o texto não permite perceber, em sua totalidade, o objeto retratado - aqui paisagem, ali um rosto, uma expressão, o desenho de uma casa.

Por outro lado, o autor pode fazer um exercício estético que, por outros meios que não a visualização, proporciona ao leitor uma sensação que faz juz àquilo que se descreve.

(E, ademais, nenhuma das ciências nem nenhum dos sentidos nos permite perceber qualquer coisa em sua totalidade e essência. Marca o bar que a gente discute.)

Dessa descrição da Marambaia, sabe-se que lá há

- uma paisagem memorável, a ponto de apagar a fisionomia do sargento

- provas de artilharia

- sol

- uma duna, à beira de

- uma restinga, finíssima e de areia branquíssima

- ondas de um lado e do outro da restinga


De resto, temos provocações de sentimentos e noções estéticas.

'num instante tudo se iluminou'

'do alto da duna eu contemplava'

'o oceano não tragava por capricho, ou por piedade, ou por desvelo natural ou por sadismo'

'era como uma praia diante do espelho'


***


Dificilmente quem leu isso enxergou a restinga da Marambaia como ela realmente visualmente é. Encontrou, em vez disso, uns poucos elementos para a construção de um ambiente imaginado que faz jus a ela.

Em texto, mapa e fotos, dá uma olhada (?) aí e sente se não é verdade.


quinta-feira, 18 de junho de 2009

Esclarecendo o fim da exigência do diploma de jornalista

Afinal, o que foi decidido? Que não é preciso mais ter registro para exercer a função de jornalista? Ou que é preciso registro, mas não precisa ter diploma para solicitar?

Bom, uma pequena investigada ajuda a esclarecer.


1. O que foi julgado, exatamente:


Decisão

O Tribunal, por maioria e nos termos do voto do Relator, Ministro Gilmar Mendes (Presidente), conheceu e deu provimento aos recursos extraordinários, declarando a não-recepção do artigo 4º, inciso V, do Decreto-lei nº 972/1969, vencido o Senhor Ministro Marco Aurélio. Ausentes, licenciados, os Senhores Ministros Joaquim Barbosa e Menezes Direito. Falaram, pelo recorrente, Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo - SERTESP, a Dra. Taís Borja Gasparian; pelo Ministério Público Federal, o Procurador-Geral da República, Dr. Antônio Fernando Barros e Silva de Souza; pelos recorridos, FENAJ - Federação Nacional dos Jornalistas e outro, o Dr. João Roberto Egydio Piza Fontes e, pela Advocacia-Geral da União, a Dra. Grace Maria Fernandes Mendonça, Secretária-Geral de Contencioso. Plenário, 17.06.2009.


2. Vamos lá ver, então, o que diz exatamente o tal inciso V do artigo 4º:


Art. 4º O exercício da profissão de jornalista requer prévio registro no órgão regional competente do Ministério do Trabalho Previdência Social, que se fará mediante a apresentação de:

I - prova de nacionalidade brasileira;
II - folha corrida;
III - carteira profissional;
IV - declaração de cumprimento de estágio em emprêsa jornalística;
V - diploma de curso superior de jornalismo oficial ou reconhecido registrado no Ministério da Educação e Cultura ou em instituição por este credenciada, para as funções relacionadas de "a" a "g", no artigo 6º.


3. Ou seja:

- continua obrigatório o registro profissional para o exercício das funções de jornalista, relacionadas de "a" a "g" no artigo 6º;
- só que, agora, para requerer o registro profissional, não é preciso apresentar o diploma.


4. Por último, então, vamos verificar quais são essas funções:

Art. 6º As funções desempenhadas pelos jornalistas profissionais, como empregados, serão assim classificadas:

a) Redator: aquele que além das incumbências de redação comum tem o encargo de redigir editoriais, crônicas ou comentários;
b) Noticiarista: aquele que tem o encargo de redigir matéria de caráter informativo, desprovida de apreciação ou comentários;
c) Repórter: aquele que cumpre a determinação de colher notícia ou informações, preparando-a para divulgação;
d) Repórter de Setor: aquele que tem o encargo de colher notícias ou informações sobre assuntos pré-determinados, preparando-as para divulgação;
e) Rádio-Repórter: aquele a quem cabe a difusão oral de acontecimento ou entrevista pelo rádio ou pela televisão, no instante ou no local em que ocorram, assim com o comentário ou crônica, pelos mesmos veículos;
f) Arquivista-Pesquisador: aquele que tem a incumbência de organizar e conservar, cultural e tecnicamente, o arquivo redatorial, procedendo à pesquisa dos respectivos dados para a elaboração de notícias;
g) Revisor: aquele que tem o encargo de rever as provas tipográficas de matéria jornalística;
h) Ilustrador: aquele que tem a seu cargo criar ou executar desenhos artísticos ou técnicos de caráter jornalístico;
i) Repórter-Fotográfico: aquele a quem cabe registrar, fotograficamente, quaisquer fatos ou assuntos de interêsse jornalístico;
j) Repórter-Cinematográfico: aquele a quem cabe registrar cinematograficamente, quaisquer fatos ou assuntos de interêsse jornalístico;
l) Diagramador: aquele a quem compete planejar e executar a distribuição gráfica de matérias, fotografias ou ilustrações de caráter jornalístico para fins de publicação.

Parágrafo único. Também serão privativas de jornalista profissional as funções de confiança pertinentes às atividades descritas no artigo 2º, como editor, secretário, subsecretário, chefe de reportagem e chefe de revisão.

***

Muito bem. Então, é preciso registro, que agora pode ser obtido sem diploma, para ser

- redator
- noticiarista
- repórter
- repórter de setor
- rádio-repórter
- arquivista-pesquisador
- revisor

Pela letra da lei, em tese, nunca foi necessário ter registro de jornalista para ser editor, secretário, subsecretário, chefe de reportagem e chefe de revisão. Essa inferência, entretanto, é muito rápida, tomada por mim sem consultar qualquer especialista, não dá pra passar adiante.

Atualizado: depois da contribuição jurídica do amigo mestrando em Direito Gustavo Martins Baini, entende-se que, provavelmente, a exigência de registro estende-se às funções listadas no parágrafo único do artigo 6º (editor, secretário, subsecretário, chefe de reportagem e chefe de revisão).

sábado, 13 de junho de 2009

Os pobres e o Chávez


O David Coimbra escreveu uma crônica legal sobre o que viu na Venezuela, onde foi cobrir o empate do Grêmio com o Caracas pela Libertadores, dia desses.

Por motivos óbvios, um dos temas que deixa curioso todos os que por lá desembarcam - como eu o fiz, em dezembro de 2005, para 13 dias nos cafundós do reyno bolivariano - é o porquê dos pobres gostarem tanto do Chávez.

À época, escrevi o que segue. Mandei pro David ver e ele disse "Ducaralho o texto! É bem isso." Espero que vossas senhorias concordem:


A ‘boa’ explicação do apoio a Chávez se vê em Arapuey, um pueblito pobre qualquer, com 10 mil habitantes, no interior do estado Mérida. Lá, para se fazer um curso superior, basta querer, como quis Carolina Fernandez, 21 anos, futura pedagoga. As misiones – nome utilizado pelo governo para destacar seus programas mais badalados – Ribas, Robinson e Sucre levam os três graus de educação a lugares assim.

Não é diferente na saúde: a Misión Barrio Adentro instalou consultórios nas regiões mais necessitadas, e seu pessoal é composto majoritariamente pelos 14 mil médicos “importados” de Cuba. Luís Manuel Quiaro, namorado de Carolina e hoje servidor da prefeitura de Arapuey, já trabalhou na Misión Identidad, destinada a fazer as carteiras de identidade para o povo, em grande parte sem documentos. Em dezembro (de 2005), Chávez lançou a Mision Ciência, para estimular a produção científica nacional.

Um dos programa mais presente no dia-a-dia do povo é a Mision Mercal – apelido de Mercado de Alimentos –, que instalou abastos com produtos da cesta básica subsidiados pelo governo. Arroz, lentilha, óleo de soja, têm preços em média 50% inferiores aos dos supermercados brasileiros, mais ainda em relação aos locais. Hortifrutigranjeiros frescos e a carne não tem distribuição centralizada, e são fornecidos por cooperativas de pequenos produtores. Francisco Nuñez, administrador de uma das duas unidades de Arapuey, tem direito a 7% de lucro sobre o que vende.

Francisco Nuñez e família no Mercal: comida barata para 'la gente'

A ‘má’ explicação se vê por todo muro venezuelano outrora branco, sobretudo em Caracas. Todos estão cobertos de propaganda dos governos e, pior, dos governantes. A personalização do Estado é regra: comum encontrar o nome de Chávez ou do prefeito pintado em letras garrafais, dizendo que ele fez isso ou aquilo. Ou seu retrato ao lado de Simón Bolívar, o herói nacional; talvez dirigindo um ônibus, cheio de gente feliz dentro.

Uma viagem pelas estradas do interior dos estados Mérida, Zulia e Falcón espantam a cada cidade: o que seria o pórtico era, em verdade, uma “homenagem” ao prefeito. Sem exceção, exibiam fotos do sorridente alcade, como se chama o prefeito por lá. E mais, explicou Quiaro: “Quando diz ‘bolivariana’, quer dizer que está com Chávez. Se não diz, está com a oposição”.

Silvio Torres, el alcade, en su oficina: porque con Chávez manda el Pueblo. Y Silvio!

E assim é. Alcadía Bolivariana del Município Julio César Salas, onde fica Arapuey. O adjetivo identificador do partido no poder – o MVR, Movimento Quinta República – foi incorporado às designações dos executivos municipais. Imagine chegar ao local de trabalho de César Maia e ler na fachada: Prefeitura Pefelista do Município do Rio de Janeiro*.

* À época, César Maia pertencia a um partido chamado PFL, hoje Democratas, e prefeito do Rio.


***


Sobre a viagem:


Quase perdi a carona.

Só fui parar na Venezuela porque era o único destino na América do Sul para onde a finada Varig (lembram dela?) topou me levar com Smiles na data em que eu podia viajar. Era dezembro de 2005, e em Guarulhos, o vôo atrasou 5h pra sair do chão. Nesse tempo, fiquei amigo de três venezuelanos da minha idade que moravam no interiorzão, cada um numa cidade. Ou em pueblos, na verdade. Eram campesinos.

Fui para as cidades deles, e passei longos cinco dias em Arapuey, um buraco de 10 mil habitantes. Fui recebido pelo prefeito e me hospedei na casa de um dono de Mercal - um dos Mercados de Alimentos subsidiados inventado pelo Chávez.

Sobrevivi comendo arepas e bebendo chicha, andando de carona na motoneta do Quiaro, ou no Maverick do pai dele, dançando merengue e reggaeton no inferninho local e, ao cabo da imersão na Venezuela profunda, tomando um ônibus (eis um nome elogioso ao veículo) a Maracaibo, a metrópole do petróleo bolivariano.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

João Ubaldo e o foco nos erros. Dos outros

Informa meu pai que João Ubaldo Ribeiro está numa fase rabugenta, a reclamar dos textos dos outros. Viva a implicância! Viva o foco nos erros dos outros!

N'O Globo de domingo (e no DM, e em sei lá quantos outros jornais que compram a coluna dele), o cara me vem com o
Caderninho rabugento,
dedicado a bem registrar o que de mau se escreve por aí.

Agora me diz se nunca viste isso:

"Escuto agora um senhor afirmando que o presidente de uma comissão do Congresso não vai tomar nenhuma medida concreta (as abstratas, tudo bem) no momento, porque prefere aguardar maior unanimidade entre os membros da dita comissão. Mal tenho tempo para me indagar como é que a unanimidade pode ficar maior ou menor (...)"

"Despeço-me do televisor, não sem antes ouvir outro repórter dizer que uma inauguração ocorreu “há exatos vinte anos”. Fico imaginando vinte anos rigorosamente exatos, cada ano mais exato que outro, não admitindo nem ano bissexto. Outra vez inovamos e, agora que penso mais detidamente no assunto, parece que o Brasil vai de fato distinguir-se por tornar variáveis as categorias invariáveis."

"Creio também que já chegou a hora de preparar o necrológio de “cujo”, esse desconhecido. Há alguns marginais que ainda recorrem a ele, mas estão cada vez mais minoritários e acredito que dentro em breve quem usá-lo vai ser vaiado ou denunciado como elitista ou perguntado como vão as coisas na Ucrânia."

Quer mais? Lê lá.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Frost/Nixon/Moraes

Todos comigo: "tô nem aí, tô nem aí..." (Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

Um jornalista deve ter entre os seus desejos sádicos (ou cidadãos, dependendo do caso) a chance de levar uma fonte a revelar seus crimes por meio de habilidades de entrevista.

É isso o que faz a magia da entrevista-tema do filme Frost/Nixon, e é por isso que o filme é uma vitrine para o que bom e de horrível que se pode fazer no papel de entrevistador.

Muito do que o o bom desempenho exige pode ser sintetizado com a palavra especificidade - é preciso fazer perguntas específicas, não generalistas; o que exige preparação e domínio das... vamos lá, das especificidades do assunto tratado.

O domínio do assunto, em geral, gera a confiança necessária para que, empertigado, o entrevistador aperte o entrevistado e não permita rodeios. Toda meia verdade será contestada, toda contradição será denunciada, toda inconsistência será questionada. (Repetir isso todas as manhãs, três vezes, antes de ir para a redação)

Foi assim, específico, preparado, empertigado e contestador, no apagar das luzes de uma jornada de entrevistas, que Frost, o entrevistador, arrancou de Nixon a histórica confissão inescrupulosa:

"When the president does, that means it is not illegal"


O engraçado é que, nos dias anteriores da entrevista, Frost havia sido generalista, despreparado, mole e tolerante com a lengalenga do presidente do Watergate. Só se salvou no final.

***

Por favor, o próximo de vocês que tiver a oportunidade de entrevistar Sérgio Moraes, o deputado que se lixa, considere ir antes à sua Santa Cruz do Sul e chegar ao encontro armado, bem armado, de preparo empertigante.

Sem isso, não podemos ir muito além do "Por que o senhor se lixa?"; nem podemos afirmar, com conhecimento para contestá-lo diante do rodeio, qual é a origem de seu prestígio e riqueza na sociedade local; nem passar da especulação sobre sua ética e decoro, não temos cacife para (des)afirmá-la sem sermos questionado sobre a consistência da denúncia.

***

Com tudo o que de odioso há no mero aspecto do Moraes, no seu manifestado desprezo pelo que nós - os que não votamos nele - pensamos, na sua defesa corporativa do deputado do castelo, mesmo com tudo isso, ele tem razão em duas coisas.

Primeiro: a imprensa não deve pautar as decisões administrativas/jurídicas. Se não há elementos que provem a culpa de um acusado, não podemos imputar a ele crime apenas com base na gritaria e em suposições desembasadas. Diz nosso orador-mor:

"A minha conduta não será ditada pela imprensa. Se eu entender que o Deputado Edmar Moreira é inocente, vou dizer que ele é inocente; se eu achar que ele é culpado, não será a imprensa que irá pautar o que eu for fazer quando apresentar o meu relatório."

Perfeito.

Segundo: a opinião pública não é a opinião publicada, e, por mais afinada que esteja com os valores gerais (?) da sociedade, não deve ser assim considerada. A declaração moraesiana, em verdade, não foi de que ele se está se lixando para a opinião pública. O que o rapaz disse foi que

"Ontem, uma repórter do jornal O Globo me ameaçou ao perguntar se eu não temia a opinião pública. Respondi que estava me lixando para aquilo que ela escreve no jornal O Globo, como estou me lixando para o que escrevam em outros jornais do País."

Bom, nessa afirmação há uma reação à arrogância de parte dos colegas jornalistas, aqueles que estão certos de representar o povo e a... opinião pública, com um mandato concedido por... eles mesmos.

***

Ainda tem gente ganhando grana com as entrevistas completas de Nixon a Frost.

***

Aprende-se sobre os fundamentos da entrevista nesse cursículo gratuito (em inglês) da NewsU.