sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Palavra fundamental

Há obras que existem só para que uma frase, ou um conjunto delas, mas não mais do que algumas linhas, seja revelada.

Por obras entenda-se livros, peças, filmes.

É como se o autor dissimulasse a gana de dizê-la de sopetão, isolada, sem contexto ou ilustração, e a tonificasse por meio de um enredo.

As idéias que a compõem se fazem saber aos poucos, em ensaios, ao longo das páginas (ou dos minutos); apresentam nuances aqui e ali e, por fim, em um ponto determinado -- que raramente se confunde com o ápice da história, mas sim com a análise de seu significado --, se descortina em palavras.

Para fazer como o presidente Lula, e porque o futebol, queira eu ou não, mobiliza parte das minhas atenções, recorro à metáfora futebolística.

A sensação de uma partida, antes que os gols ocorram, caso ocorram, se produz pelo que os times ensaiam. Quem assiste ao jogo na arquibancada se aflige mais ou menos de acordo com os indícios sentidos de que um gol vai acontecer em favor ou contra o seu time. A observação da articulação das jogadas; da a agudeza dos ataques; da a supremacia física ou técnica dos jogadores nos faz reter uma história sentida da partida, dificilmente expressa em palavras, mas que faz antever os gols, o desenlace do que está a passar.

Os gols, contra ou a favor, em maior ou menor quantidade, costumam confirmar a validade dessas sensações.

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Pois bem. Toda essas volta serve para louvar as frases reveladas em Ciencias morales, do escritor argentino Martín Kohan. São nove linhas -- preparadas ao longo das 183 páginas que as precedem -- aplicáveis à relação do homem com as suas profundezas, ao terreno das transgressões ocultas, imaginadas ou reais.

"No es esto o aquello lo que la intimida de los túneles, sino su existencia misma: no lo que puede haber acontecido en ellos, sino el hecho mismo de que, por debajo de lo visible, haya pasadizos que pertenecen a lo que no se conoce ni se ve. Por momentos siente la tentacional de asomarse a esos túneles, aunque jamás se atravería a incursionar en ellos. Ese reino de la humedad y de las ratas sólo le produce miedo, un miedo que lucha, pero que no pierde, con el misterio que la atrae."

No contexto, a metáfora dos túneis secretos de uma escola argentina pode tanto remeter aos segredos de uma sociedade -- os da sociedade argentina de 1982, durante a Guerra das Malvinas e o ocaso do regime militar -- quanto aos segredos de um homem -- as motivações indevassáveis, o que de pouco nobre há em nossa natureza e que tentamos, sob o verniz social, sufocar.

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O livro já está aí em português. A única crítica minimanente atenta e criteriosa que o Google lista não é das mais favoráveis, porém bem mais condizente do que esta, de alguém para a Folha, que parece não ter entendido bulhufas do livro.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Atípico

"Não se sabe se o problema foi a falta daquelas seis batidas fortes dos comandados do Vanderlei da Garra, seguidas do “êêh!” da torcida, de braços ao alto, que se repete até todo mundo começar a pular e a cantar, enquanto os jogadores se esforçam para retribuir em campo. Fato é que o time começou a jogar lento, desorganizado, e aparentando estar desprovido de algo que não andava faltando no Bento Freitas: vontade, garra, determinação."

É, eu escrevo sobre futebol quando não estou fazendo nada pior.

Não vale a pena ler a íntegra desse texto. Eu avisei.

Descontada a minha participação, e espremendo bem, acaba se encontrando coisas boas na imprensa esportiva. Um exemplo é o delicioso texto do Divino Fonseca em uma edição da Revista Placar de agosto de 1985. É um relato romântico da invasão xavante a Porto Alegre para a histórica semifinal Brasil x Bangu. O Bangu do Castor de Andrade, o bixeiro, o mesmo da Mocidade Independente de Padre Miguel, lembra?

A peça começa assim:

"'Que porre que eu vou tomar, meu irmão', antecipava, infinitamente triste, o torcedor Vanderlei Souza, 38 anos, cambaleando até o ônibus da charanga do Brasil, de Pelotas, no início da madrugada de quinta-feira passada, em Porto Alegre. O Brasil tinha perdido para o Bangu a primeira partida das semifinais da Taça Ouro por 1 x 0 - uma injustiça, um crime, segundo Vanderlei."

Está tudo aqui:

Capa - Bangu Espetacular: O poderoso Castor
Página 16 - A maior invasão dos 'xavantes'
Página 17 - Torcida Generosa
Página 18 - Gritos de guerra, hinos, batucada e muita cachaça
Página 19 - Rumo a Tokio

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Um bom exemplo contemporâneo é o blog Impedimento.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Povômetro

(Os) americanos, reis do pragmatismo, acham que + e - são suficientes para resumir a complexidade do pensamento. No caso, sobre candidatos. Na "bottom line" (ou "no final das contas", "noves fora"), o cara tem que votar em um ou outro, afinal.

A CNN confinou "30 indecisos de Ohio" (Massachussets, Texas) durante o debate Obama x McCain da noite de hoje.

Essa gente alimentou o povômetro.

O resultado é irresistível: ver, ao vivo, o que esses 30 dizem (com + ou -, em seus controles remotos) sobre os candidatos, enquanto eles falam.

Pra completar a diversão do televidente, fazem uma linha laranja para mulheres e uma verde para homens.

Ao longo da conversa, as mulheres se mostraram obamistas; os homens, macainistas. Todas as frases de efeito foram aprovadas, para um lado ou outro; as agressões, controversas; quando insistentes, foram reprovadas.

O vídeo aí abaixo demonstra:

Presente ausente – a história da mulher do restaurante por quilo

Em prol da tranqüilidade do pano de prato que cobria o fogão azul da minha vó, ninguém cozinhava no apê dela, em Copacabana. A vó não deixava.

Quer uma torrada? Faz no microondas. Água quente? Microondas.

Por isso eu almoçava todos os dias na rua. Nos por quilo ou nos bifê livre. Prato feito não era comigo, até porque no Rio todo mundo só fala em PF, PF não é nome de coisa de comer.

Aí tô eu lá no Caçarola de Barro, um dos quilos favoritos. Eu e as velhinhas de Copacabana, que todas as vós remediadas do Rio de Janeiro moram em Copacabana.

Uma delas, nem tão velhinha, começa a me fitar.

Não sei bem qual é a origem etimológica de fitar, mas essa mulher me fitava como se tivessem passado uma fita por trás da cabeça dela e por trás da minha, e agora estivessem apertando, os olhos dela chegando cada vez mais perto dos meus.

A gente estava na mesma mesa, na diagonal. Eram mesas de quatro lugares, dois dum lado, dois do outro. Quem vai sozinho tem o ônus – ou o bônus, em 1% dos casos – de compartilhar a refeição com outros famintos. Eu tentava me concentrar, e ela mal comia, só me fitava, a cara cada vez mais perto da minha.

Diz ela, devagar, esticando as rugas, com os olhos começando a lacrimejar:

“Você tem o rosto idêntico ao do meu filho que morreu.”

Eu demonstrei só o interesse mínimo ético, mas, a essa altura, os outros dois colegas de mesa já perguntavam detalhes sobre o caso. Chorando, ela contou que o guri ia passando de carro debaixo da elevada que margeia o Centro quando uma Kombi caiu lá de cima, esmagou o carro dele. Fazia dois anos. O cara era jovem como eu.

Eu olhava o relógio, tentava me livrar da fita. A fita apertava, o papo começava a entrar no âmbito do espiritismo. Apertava, até que a gente quase se encostou quando ela testou a hipótese:

“Só não vai me dizer que teu nome é Eduardo.”

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À confirmação se seguiu um pranto que fez as mesas adjacentes entrarem na história. Todo enredado na fita, cortei-a com uma seqüência de golpes. Tcham: uma cara de compaixão. Tchum: uma pergunta fatal – “mas ele não nasceu em 2 de abril nem era gaúcho, né?” –, pra fazer o mundo encantado ficar mais real. Tchantchantchantcham: levantei, paguei com meu débito e fui embora.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Retratação tardia

Era janeiro de 2006 quando li o livro do Lucio Vaz.

À época, ainda estudante e pretensioso (algo mudou?), escrevi:

"Oferta especial de férias

Frustrado com suas reportagens?
Não sabe como aqueles caras dos jornalões arranjam informações que você tentou, tentou, mas não conseguiu?
Sonha em descobrir que não estão nos seus empregos porque as têm, mas as têm porque estão nos seus empregos?
Seus problemas acabaram!

Leia A Ética da Malandragem, de Lucio Vaz. Um livro para professor de jornalismo indicar pra alunos, de preferência nos primeiros semestres. Ideal para ser lido nas férias ou no banheiro: traz textos curtos, para se ler em menos de 12 minutos.

O autor é um repórter; o livro é o relato de como fez suas reportagens mais legais. Todas elas versam sobre as coisas do submundo do Congresso, onde habitam os estranhos seres do baixo clero (ou alguém acredita que o físico de Severino Cavalcanti é algo normal?).Você vai ver que:

- grandes furos caem do céu quando se está em grandes veículos
- com as informações caídas-do-céu na mão, qualquer idiota faz uma baita matéria

Além disso, seu texto não afeta a auto-estima do projeto de jornalista. É do tipo “isso eu também sei escrever”."

***

Conheci o autor meses depois. Grande cara, jornalista do primeiro time. Aceitou ser entrevistado por meia dúzia de estudantes em um boteco das adjacências da Feevale, em Novo Hamburgo; depois enfrentou um Zelig com os que resistiram. Completou a série recebendo a turma em Brasília, no mesmo ano.

A impropriedade ronda os pensamentos (e escritos) produzidos quando não se chega perto o suficiente do objeto. Foi o caso do texto que passou.

O retrato mudou:

- Eu e meus colegas aprendemos com o homem que sim, se recebe informações por causa do posto que se ocupa. Não sem antes contruir 10 anos de boas relações e, principalmente, trabalho reconhecido. O homem faz o posto.

- Os furos caem do céu. Mas antes é preciso pintar um céu. O céu será tão belo quanto o talento que se tem.

- Qualquer idiota faz uma baita matéria. Não sem antes obter as informações. Farejar os fatos. Apurar as verdades, se livrar das aparências. Checar tudo. Coisa que idiota não sabe fazer.

- O texto não afeta a auto-estima, é dos que todo mundo sabe fazer. Evidente: não são matérias estéticas. O tema não se presta. São, como gosta de dizer o Bob Fernandes, sobre "os intestinos do Brasil".

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É isso.

Presente ausente - A história da freira na fila

Sete pessoas na fila da loja da Claro, em Copacabana. Em menos de meia hora, ninguém vai conseguir sair dali.

O que um gaúcho faz quando alguém entra atrás dele na fila? Nada. E o carioca? Vira para trás e, depois de um “Aimeudeux”, conta todo o drama que o levou até o local.

O da dona que estava duas posições na minha frente era maravilhoso. Foi vítima da enxurrada que lavou – mas esqueceu de levar a sujeira; ao contrário, a trouxe – as ruas do Rio.

Ela ficou tracada no carro, às 5h30 da manhã, numa das ruas mais movimentadas do bairro. Não queria descer porque a água estava pela canela. Pior pra ela: os minutos se passaram e o nível subiu mais ainda. Invadiu o carro. Molhou o motorr. Ax pernax. E, é Claro, o celularr.

O senhor paulista que estava logo atrás dela não escapou da síndrome da hipercomunicação local. Teve que se render a um “E você?” e explicar o seu caso. Ou tentar.

Não tinha terminado a primeira frase quando começaram as sugestões. “Cê tem que comprarr um chip daqui, se não cê vai gaxtar mó fortuna”, disse a Dona Molhada. E daí se seguiu aquele papo sem nexo: a cada esclarecimento dele, outra recomendação irrelevante dela.

Para os funcionários da loja,instala-se o caos. As más experiências compartilhadas comprovam, na cabeça de quem as ouve, a merrda que é o serrviço da empresa delex.

Meu caso era mais simples, eu só queria comprar um cartão. Saí da fila das desgraças e fui para a do caixa. À minha frente, só uma pessoa; um rapaz também comprando cartão. Mas eis que, do fundo da loja, vem uma freira. Vestida de pingüim e tudo.

“Que legal”, penso eu. “Se usa celular até na Antártica.”

Mas veja só você. A freira vem deslizando na minha direção, sem cruzar o olhar com o meu. Quando ela está a uns dois passos, vira de costas. De início eu não entendi. Quando me dei conta, pensei: “mais uma pro blog”.

Sim, a freira me ignorou e entrou na minha frente na fila. Não disse nada, não olhou pra trás constrangida, não nada. Só entrou.

Eu ri. Ela fez que não ouvia. Afinal, ela devia ser carioca; me imaginou americano, incapaz de reclamar por não conhecer a língua dos bárbaros nativos.

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O passado salva quando o presente anda ausente.
O que se lê acima foi publicado em 25/10/2005, em um velho blog-se, sob o título Série "Coisas de carioca" - n°1.

Renânicas

Se tem um cara que escreve bem é o Renan Antunes de Oliveira.

O mais recente escrito do homem é A puta Tatiana, a rainha da Suécia e eu, texto daqueles com todos os ingredientes do estilo nanânicos: frases deliciosas, descrições e metáforas despretensiosas e arrebatadoras, viagens às bordas do politicamente incorreto, estranhamento por identificação.

Com mais charme ainda, dá pra ler La puta Tatiana, la reina de Suecia y yo.

Ou, pra recordar um dos meus preferidos dentre os escritos dele, Na balada da morte, sobre dois brasileiros condenados à morte na Indonésia (que fiz a irresponsabilidade de editar para o site do JÁ, em uma versão bem mais integral do que a desnatada publicada em Istoé).

Ou ainda, pra recordar o texto que o consagrou, A tragédia de Felipe Klein, prêmio Esso de reportagem em 2004.