O meu jornal da época acabou não publicando porque era época de dupla Gre-Nal nas alturas. Com dois anos e 6 meses de atraso, portanto, vamos contar a história dos times que, sem chance de título e sem cobertura da imprensa, jogam só por dignidade.
Eram 14h57min de sábado quando o bandeirinha deu uma espiada no vestiário do 14 de Julho, de Santana do Livramento. Viu os jogadores abraçados, "gritando" o Pai Nosso, pedindo ajuda para enfrentar o inimigo que enfrentariam em três minutos: a desmotivação.
A equipe amargava a lanterna da Segundona gaúcha e não tinha chance de classificação. Havia feito apenas um gol no mês de maio.
Na tarde chuvosa em São Leopoldo, a lembrança do mau retrospecto era um adversário mais forte do que o Aimoré, o time local, ou seus 93 torcedores, ou o campo enlameado. Enquanto os jogadores da dupla Gre-Nal correm atrás de títulos e de prestígio profissional, o técnico Rodinei Lucas pede que seus comandados lutem pela dignidade.
- Vamos perder mais uma ficar mais atrás ainda? Como a gente vai recuperar a nossa estima depois? Vamos dizer o que quando chegarmos em Livramento? - provocou, na preleção.
Para Lucas, as próprias dificuldades injetam ânimo nos atletas. Um terço do grupo é composto por amadores, que recebem apenas uma ajuda de custo de R$ 250. Os demais ganham o mesmo salário: R$ 490 líquidos. Todos haviam acordado às 4h - cada um em sua casa, pois não há concentração - para embarcar no ônibus rumo ao local do jogo, a 566 quilômetros da cidade fronteiriça. E não contavam com chuteiras adequadas para chuva.
- Agora é na emoção! Joga pra família, pros torcedores, para mim, para qualquer um! - pediu.
O time atendeu. Urrou, bateu as travas no cimento, entrou em campo e voltou de lá às 16h55min com um heróico 2 a 1 sobre o Aimoré. Em uma partida, fez o dobro dos gols registrados em todo o mês anterior. Paulinho marcou de cabeça aos 12 minutos do primeiro tempo. Toninho ampliou com uma bela cobrança de falta aos 12 do segundo. Beto descontou aos 36 da etapa final.
A vitória manteve a equipe na última colocação, agora com quatro pontos. Encostou no Cruzeiro, de Porto Alegre, e no próprio Aimoré, ambos com a mesma pontuação. A cinco rodadas do fim da competição, os três seguem brigando contra o desânimo.
Atrasado vai de carro
Comissão técnica e 17 jogadores acordaram às 4h para embarcar às 5h no ônibus que os levaria de Santana no Livramento, na fronteira com o Uruguai, a São Leopoldo, na Região Metropolitana. Mas o meia reserva Oséas, 18 anos, dormiu 10 minutos a mais e perdeu a condução. Seus pais não tiveram dúvida: pegaram o carro e dirigiram 556 quilômetros para não deixar o pimpolho de fora da partida. Mesmo chegando a tempo, Oséas não jogou. A família não se importou.
- Estou muito feliz de ter vindo - disse o pai, João Pedro.
"É 'nóis' hoje"
O atacante Paulinho foi um dos líderes da vitória. Tomou a iniciativa de abraçar cada um dos jogadores no vestiário, antes da partida. Segurava o rosto do companheiro e buscava comprometimento olhando no olhos.
- É 'nóis' hoje, cara. Vamos lá - sussurrava.
No campo, o jogador também fez sua parte. Cabeceou para fazer o primeiro gol da partida aos 12 minutos do primeiro tempo, depois de cruzamento da direita. Ao final do jogo, tinha no rosto as marcas da missão cumprida. O rosto imundo de terra, os olhos cheios de lágrimas.
Cabe dentro de um fusquinha
Cinco torcedores do 14 de Julho acompanharam a partida, todos santanenses desgarrados. De Eldorado veio o pintor Élbio Corrales, 58 anos. Ele não perde um jogo na Região Metropolitana.
- Ano passado levamos um laço de 7 a 0 do Sapucaiense, mas a gente não desiste - conta Corrales.
Guaíba enviou Paulo Pereira, 51 anos, torneiro mecânico aposentados.
- O que menos importa é o resultado. A gente vem é para manter a chama acesa. Se a gente parar, quem vai torcer? - emenda Pereira.
Mal sabiam que lá no vestiário os jogadores os citavam como incentivo para ir adiante.
"Asesino"
O apoio verbal do 14 de Julho durante o jogo vinha em espanhol. Enquanto o técnico Rodinei Lucas se preocupava em orientar o posicionamento, o fisicultor uruguaio Sérgio Sanchez tratava de não deixar a turma esmorecer.
- Saquen la pelota si quieren ganar! - recomendava à defesa.
A tensão permanente no reservado rubro-negro só se desfez em um exagero do preparador físico. Ao ver um atacante do Aimoré pisar acidentalmente na barriga do zagueiro Toninho, que havia aplicado um carrinho, Sánchez bradou:
- Asesino!
Os reservas caíram na gargalhada.
O emprego e o sonho
O Aimoré não enfrentava uma situação lá tão diferente da do 14 de Julho. Estava no antepenúltimo lugar, com 4 pontos. Para motivar os jovens jogadores, o técnico Bem-Hur Pereira usou dois argumentos. Primeiro, relembrou que é um privilégio ter um clube pelo qual jogar.
- Todos são profissionais, enquanto existe muitos jogadores desempregados - comparou.
Depois, fez os garotos projetarem o que poderiam viver caso trabalhassem direitinho.
- Estás no Aimoré hoje, amanhã podes ir para um time da primeira, depois para um do Brasileirão, quem sabe um dia a Seleção. Se tens sonhos, tens que trabalhar por eles - ensinou.