Um dos
primeiros textos desse blog dizia que "q
ualquer objeto, olhado por um sujeito maluco, pode se transformar em metáfora da vida".
O objeto do momento é a GPS (ela tem voz de mulher), a alcunha da
Global Positioning System. A GPS é capaz de me levar, com rara precisão, aos endereços que eu solicito.
"Mrs. GPS, por favor, me leve de Santa Monica a Long Beach." Aí ela vai e diz:
"turn left in Pacific Coast Highway in ... two ... poit ... three ... miiiiles", devagarinho pra eu entender direitinho. Ainda desenha um mapa parecido com a tela do
Pac Men - eu sou o Pac, a estrada é o Men -, e a gente vai brincando de comer a linha demarcada até o destino final. "
You have arrived", diz ela, ao final, como quem diz "
You win".
A viagem em curso seria um desastre sem ela. Sozinho de carro, eu teria que estudar muito detalhadamente os mapas antes de partir e parar de tempos em tempos pra pegar o caminho certo nas highways da California. Poderia bater no carro da frente ou ser preso pelos sensuais police officers americanos (sorry, são as influências de San Francisco) consultando o mapa enquanto dirijo. E, sem dúvida, perderia muito tempo me perdendo (rá!).
Por essas coisas, quando um simpático negro de dreadlocks, dentes de ouro e jaqueta de couro me abordou na rua me pedindo cinco minutos para dizer o quanto é bom entregar a vida a Jesus, tive ganas de dizer que, infelizmente, no momento, eu tinha entregado minha vida à GPS.
"Sorry, man. In GPS we trust. Jesus may be the Lord, but GPS is Our Lady."
Agora vem o lado nefasto (uáu! que surpresa!). A GPS é absoluta, não dá espaço para o acaso. Não dá caminho opcional: o máximo que me deixa dizer é se eu prefiro usar o máximo de highways, ou o mínimo de highways, ou, vá lá, o trajeto mais rápido. Não dá pra dizer "mas GPSzinha, minha querida, eu queria ir pelo litoral". Ela não dá ouvidos.
Bom, se há um Sistema de Posicionamento Global, absoluto e independente, sobre o qual nós, humanos inconstantes, não temos poder de interferência; se a rota está traçada, e tudo o que há a fazer é seguir por ela, aceitando os congestionamentos, batidas e bloqueios de vias, sinaleiras e feiúras urbanas; se entendermos que tudo isso é inevitável e predestinado, então sobra pouco espaço para o nosso protagonismo na direção.
(Eu avisei.)
Como bom relativista, sou partidário do modelo híbrido. Especialmente quando não conhecemos os caminhos e não há tempo e/ou disposição para trilhá-lo por si só, a entrega do nosso destino à GPS faz sentido. Ela tem pais humanos, alguém a dotou de toda a experiência que agora ela me transmite devagarinho pra eu não me perder. Outros já trilharam esse caminho e me falam agora, pela voz dela.
Mas eu (que "
não sou eu nem sou o outro, sou qualquer coisa de intermédio") sou protagonista sim, sou singular, e posso e quero me autodeterminar, andar em círculos, espiar as ruas que me parecem legais, dar meia volta pra parar em um lugar que me interessou, tentar tomar um caminho que eu mesmo escolhi, nem que seja pra dar de cara em uma rua sem saída e tentar de novo.
Aprendi a fazer isso. Sempre peço os conselhos da Mrs. GPS, e os ouço até quando é conveniente. Quando não é mais - em geral quando ela me manda entrar em uma highway cinza e feia, apesar de objetiva; ou quando me aproximo do destino, mas quero dar uma olhada em volta antes do
final final -, eu tiro o som dela.
Please be quiet, lady. Não a ouço mais, faço as coisas por mim mesmo.
Se eu acabar em um dead end, peço desculpas, lhe devolvo a voz e peço, por favor, me ajude a voltar ao caminho. Não deixa eu me perder na vida.